Resenha: livro "O papel de parede amarelo", Charlotte Perkins Gilman

 Olá pessoal, tudo bem? No post de hoje venho comentar sobre a minha experiência de leitura com o livro “O papel de parede amarelo”, escrito pela estadunidense Charlotte Perkins Gilman; publicado inicialmente em 1892, teve uma nova edição lançada em 2016 pela editora José Olympio.

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 "Às vezes tenho a impressão de que são muitas mulheres, às vezes apenas uma, e ela rasteja a toda velocidade, e seu rastejar faz com que tudo balance." (página 55)

 A obra é um conto que tem uma narradora sem nome, uma mulher casada com John, um médico. Ele leva a esposa para passar um tempo numa propriedade rural alugada, para que ela possa recuperar sua saúde, pois, segundo ele, ela tem uma "depressão nervosa passageira".

 A narradora fica hospedada num quarto no andar superior, que antigamente foi um quarto de crianças, e que tem um papel de parede amarelo que desde o primeiro instante a incomoda. E por mais que a protagonista peça ao marido para mudarem de quarto ou trocarem o papel de parede, ele não a atende.

 "Querido John! Ele me adora, e detesta quando fico doente. Outro dia, tentei ter uma conversa franca e sensata com ele, e dizer o quanto gostaria que me permitisse fazer uma visita ao primo Henry e à Julia.
 Mas ele disse que eu não estava em condições de ir, nem de suportar a visita quando chegasse lá; e a verdade é que não consegui apresentar muito bem as minhas razões, porque estava chorando antes mesmo de terminar." (página 36)

 Constantemente vigiada, solitária, sem poder visitar os amigos (pois o marido diz que agitação não seria bom para a saúde dela), sem poder fazer nenhuma atividade que lhe desperte o interesse, a narradora passa cada vez mais tempo observando o papel de parede com sua tonalidade amarela e seu padrão estranho, situação que só atrapalha o seu estado psicológico e físico.

 "O papel de parede amarelo" é uma leitura que pode ser feita em poucas horas, mas é muito valiosa e marcante no sentido de compreendermos o que era ser mulher no século XIX. Quem tem o hábito de ler romances de época, certamente já vai começar com uma vantagem ao ler a obra, por estar familiarizado com alguns aspectos da sociedade da época em que a história se passa.

 A protagonista não era vítima de violência física, mas sofria outros tipos de violência que tem nome nos dias de hoje. Seu marido achava que sabia o que era o melhor para ela, não levava em consideração o que a esposa queria, como se ela fosse uma criança ou incapaz de decidir por si mesma, chegava a sugerir que ela evitasse escrever e pensar. Como impedir que uma pessoa pense? Ainda mais sendo a protagonista uma mulher notavelmente culta? É possível ver como atualmente, infelizmente, alguns traços daquela época ainda estão presentes, especialmente os que dizem respeito a silenciar uma mulher em um debate.

 O final não foi do jeito que eu queria, mas pelo menos trouxe um certo gostinho de vingança ao mostrar como John também podia ser "atacado pelos nervos".

 A edição conta com um prefácio (ou "apresentação", como queiram chamar) escrito por Marcia Tiburi e um posfácio de Elaine R. Hedges. Acredito que os textos são de grande importância para promover uma reflexão mais aprofundada sobre a obra, pois como é dito neles, o conto foi publicado em diversas antologias somente como uma história sobre insanidade ou uma trama no mesmo estilo das obras de Edgar Allan Poe.

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"Às vezes imagino que, na minha condição, se tivesse menos contrariedades e mais convívio social e estímulos..." (página 13)

 Sobre a edição: tamanho de bolso, capa super bonita, texturizada e com um amarelo quase perturbador por ser impossível retratá-lo com precisão, páginas amareladas e porosas, ótima revisão e diagramação com margens, espaçamento e letras de bom tamanho.

 Alguns trechos dos comentários de Hedges e Tiburi:

 "Os prejuízos causados às mulheres em decorrência de estarem algemadas a esse pequeno anel de ouro são explorados em detalhe por Gilman. As mulheres são criadas para o casamento, mas não podem buscá-lo de maneira ativa, devendo esperar passivamente que sejam escolhidas. O resultado é a tensão e a hipocrisia,  e uma ênfase excessiva no sexo ou na 'feminilidade'. 'Pois, em sua posição de dependência econômica dentro da relação de gênero, a distinção de sexo é para ela não apenas um meio de atrair um parceiro, como acontece com todas as criaturas, mas um meio de extrair seu próprio sustento, o que não acontece com nenhuma outra criatura sob o firmamento." (Elaine R. Hedges, página 102)

 "(...) aos sofrimentos que eram obrigadas a suportar [no século XIX]: o fato de não poderem frequentar a universidade, embora seus irmãos pudessem; (...) o fato de serem tratadas como brinquedos ou como crianças e de por conta disso perderem grande parte de sua autoconfiança. É a toda essa classe de mulheres derrotadas, ou mesmo aniquiladas, a todo esse grande corpus de talento desperdiçado, ou semidesperdiçado, que se dirige O papel de parde amarelo." (Elaine R. Hedges, página 98)

 "(...) tudo seria diferente se ela estivesse sozinha e pudesse escrever. Ela escaparia da política sexual que lhe impõe o papel de mulher e, como tal, de doente. Mas não há essa alternativa para aquela forma de vida confinada pelo casamento, da qual a casa vem a ser a metáfora de uma prisão sem igual, mas de precedentes conhecidos por todas as mulheres." (Marcia Tiburi, página 10)

 Por hoje é só, espero que vocês tenham gostado da resenha. Fica a minha super recomendação para todos os leitores. Leiam "O papel de parede amarelo", a história é interessante e bem escrita, com aspectos que podem agradar fãs de Poe, de romances de época, de clássicos ou de temas atuais, para quem procura uma leitura rápida ou algo mais profundo.

 Detalhes: 112 páginas, ISBN-13: 9788503012720, Skoob (média de notas: 4,3/5, minha nota: 5/5). Onde comprar online: Submarino, Americanas.

 Uma dica final para quem não puder comprar: a obra está disponível em inglês no site Domínio Público, mas se você clicar em imprimir como .pdf, é possível copiar o texto e jogar no tradutor de texto do Google para ler em português. Ah, o perfil @the.yellow.wallpaper1 postou uma série de ilustrações sobre o livro no Instagram, vale a pena conferir.

 Me contem: já conheciam a obra ou a autora?

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6 comentários

  1. O bacana desse livro é que ele mexe com o imaginário do leitor, quando o li achei interessante. O sofrimento dela então pareceu meu.

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  2. Oi, tudo bem?
    Interessante o livro abordar essa questão da violência, no entanto não é uma leitura que eu faria no momento.
    Bjs

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  3. Há algum tempo que eu tenho interesse em ler esse livro, não é algo que será fácil de levar até o fim mas tenho certeza que a experiência vai valer a pena

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  4. Olá, tudo bem?

    Tem algum tempo que vi esse livro e te digo que já tinha interesse em ler, mas não deve ser uma leitura fácil, pois é permeada de sofrimento, além dessa questão de violência. Acho a capa muito interessante. Sua resenha ficou muito boa!
    Bjuss

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  5. Olá, tudo bem?

    Achei super interessante o enredo desta obra,ms não sei se leria por hora. Porém teve um ponto que me chamou bastante atenção: teu comentário que cita "romances de época".

    Esta palavrinha mágica pode ser a chave que poderá me ajudar a realizar a leitura em breve rsrsrs

    Parabéns pela resenha e obrigada pela indicação!

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  6. Já tinha visto o livro, mas não cheguei a ler. Realmente chega a ser cômico para não dizer triste esperar que alguém não pense. E infelizmente posso imaginar como alguns atos ainda podem ser visto atualmente.
    Bjs

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