Olá pessoal, tudo bem? No post de hoje, venho mostrar o que veio na caixa de fevereiro do clube de assinaturas literário Vem Pra Nárnia, nosso parceiro. Apertem o play para conferir o unboxing no vídeo ou continuem lendo:
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Livros lidos e recebidos em abril
Olá pessoal, tudo bem? No post de hoje venho mostrar os livros que chegaram e os livros que li no último mês. Vocês podem apertar o play e conferir no vídeo ou continuar lendo:
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Resenha: livro "Devoção", Patti Smith
Olá pessoal, tudo bem? Quem lembra do post que fiz me desafiando a ler 30 dos livros mais finos da minha estante em janeiro? Hoje venho trazer a resenha do primeiro que li: "Devoção", escrito pela Patti Smith e publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2018, numa edição exclusiva para a Tag Experiências Literárias que enviou a obra como um brinde para os seus associados em março do último ano.
"Por que escrevemos? Irrompe um coro.
Por que não podemos somente viver." (página 124)
"Devoção" é dividido em três partes. Na primeira, a autora relata uma de suas viagens à França e todos os elementos que foram servindo de inspiração para que ela escrevesse a segunda parte, que é um conto que dá nome à obra, e a terceira parte nos traz mais um pouco sobre a viagem e as reflexões da autora sobre o ato de escrever.
"Meu editor francês organizou uma semana de eventos literários que incluem conversas com jornalistas sobre escrita. Meu caderno permanece intocado. Uma escritora que não escreve preparando-se para ir falar com jornalistas sobre escrita. Que sabichona, eu me repreendo." (página 16)
Só pela sinopse, eu acreditava que Patti Smith falaria sobre o que lhe inspira e sobre sua rotina como escritora, mas ela faz algo além disso: ela nos mostra, nos deixa perceber, através do relato de sua viagem, como tudo foi servindo de inspiração para que uma história surgisse dentro dela. É impressionante como um filme que assistiu, um livro que estava lendo, uma apresentação de patinação que viu por acaso na TV, a observação das pessoas ao redor, as amoras que comeu antes de viajar, foram servindo de base para a trama do conto, e é delicioso ir encontrando essas referências ao longo da leitura de "Devoção".
"Todos tinham medo naquele tempo, mesmo depois do fim da guerra, mas eu era só uma criança sem medo de nada." (página 58)
Falando especificamente do conto, ele é protagonizado por uma garota que foi mandada pelos pais para viver com a tia em outro país por causa da guerra. Ela era apaixonada pela patinação e conheceria uma homem mais velho que prometeria ajudá-la a poder patinar sempre, não só nos meses em que o lago perto de casa estava congelado. Mas essa história, que conta com algumas cenas chocantes, teria um desenrolar angustiante e um desfecho trágico.
"- Eu não cheguei a conhecer meus pais. Eles foram deportados da Estônia na primavera, para um campo de trabalho na Sibéria.
- Por que motivo?
- Não é necessário haver um motivo para tratar as pessoas como gado." (página 79)
Acredito que seja uma daquelas narrativas que possa ter mais de uma interpretação, e a minha é a de uma história sobre a perda da inocência, os defeitos humanos, o afastamento do que mais se ama, sobre a solidão, a falta de uma família e de um país.
"E me ocorre que os jovens quando dormem parecem lindos, e os velhos, como eu, parecem mortos." (página 34)
Alguém aí já reviu um filme ou leu um livro e percebeu que a história não era exatamente como lembrava? Que parece que a nossa mente vai modificando nossa memória, e algumas lembranças não são tão precisas, algumas vezes até acrescentando coisas? Isso já aconteceu comigo, e é algo que a autora também comenta, uma das curiosidades da mente humana.
"Devoção" foi o meu primeiro contato com a escrita da autora e foi uma leitura que gostei muito, um livro que li em uma tarde mas que me acrescentou muito e me fez ficar encantada com a escrita maravilhosa da autora, me deixando empolgada para ler "Só garotos", outro livro que tenho da Patti Smith (que também é uma cantora sensacional, se ainda não ouviu nenhuma de suas músicas, está perdendo tempo!).
"Para mim, parecia que estávamos soltas no espaço, e isso me dava medo. Mas agora percebo que também foi um milagre. Desprovidas de passado, tínhamos apenas presente e futuro. Todos nós gostaríamos de acreditar que viemos apenas de nós mesmos, que cada gesto é todo nosso. Mas então descobrimos que nosso lugar é na história e no destino de uma longa fileira de criaturas que também podem ter desejado ser livres." (página 104)
A edição tem um tamanho de bolso, com uma capa com itens que tem a ver com a história, páginas amareladas, boa revisão, algumas fotografias e diagramação com letras, margens e espaçamento de bom tamanho.
"A ideia de embarcar num avião sem um livro produz uma onde de pânico. O livro certo pode servir como uma espécie de docente, dando o tom ou até alterando o rumo de uma viagem." (página 17)
Detalhes: 126 páginas, ISBN-13: 9788535930603, Skoob. O livro pode ser adquirido na loja da TAG.
E essa foi minha experiência de leitura com "Devoção", uma leitura rápida mas muito marcante e inspiradora, que recomendo com certeza, especialmente para quem tem vontade de ser escrever. Me contem: já leram ou querem ler algo da autora?
♥ Trazendo uma atualização do meu desafio de ler #30livrosemjaneiro, na foto vocês podem ver as minhas 6 leituras feitas até agora: "Devoção", "Rir é o melhor remédio", "Por trás das grades", "Notas sobre ela", "Crenshaw" e "Branca de carvão" (os dois últimos também fazem parte da TBR da Maratona Literária de Verão). Tenho comentado sobre cada livro no Story Instagram e no Skoob, os links estão aí embaixo. Irei postando as resenhas aqui no blog, e talvez elas fiquem um pouco diferentes do padrão das resenhas habituais, mas espero que gostem. Para rever o post sobre o desafio, clique em: TBR para a Maratona Literária de Verão 2019 e 30 livros para ler em Janeiro #MLVAllStar.
Até o próximo post!
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8 livros de autores negros ou com personagens negros para ler no dia da Consciência Negra
Olá pessoal, tudo bem? Vocês já repararam que é mais difícil encontrar livros de autores negros ou com personagens negros do que livros de autores brancos ou com personagens brancos? Então, aproveitando que hoje, 20 de novembro, é o Dia da Consciência Negra, resolvi indicar alguns livros de autores negros ou com personagens negros que eu já li e recomendo. Vocês podem apertar o play e conferir no vídeo, ou continuar lendo:
O 1° indicado é um dos meus livros favoritos, uma obra que acho que todo mundo deveria ler: “O livro dos negros”, escrito pelo canadense Lawrence Hill e publicado no Brasil em 2015 pela Primavera Editorial. A narradora é Aminata Diallo, que foi arrancada da aldeia africana em que vivia com a família, colocada num navio com outros negros para ser escravizada na América. Anos depois, em 1802, ela era uma senhora de idade avançada para os padrões da época e morava em Londres, sua história era usada por um grupo de abolicionistas para tentar aprovar leis que abolissem a escravidão.
Uma das coisas que esse livro me mostrou foi como as diferentes culturas daquelas pessoas que foram raptadas de seus países foram apagadas, diminuídas, como aqueles negros foram desumanizados ao se tornarem escravos. Ele também faz a gente entender como surgiu a tática, infelizmente existente até hoje, de criticar o cabelo ou os traços de determinados povos para colocá-los como inferiores. A história da Aminata é sensacional. Compre. Resenha.
A minha segunda indicação é "O pássaro do bom senhor", escrito pelo norte-americano James McBride e publicado em 2015 pela Bertrand Brasil, livro pende mais para o humor. A trama se passa em 1856 nos Estados Unidos. O narrador é o Henry, um garoto negro de 10 anos, escravo e morador do Kansas. Um dia apareceu John Brown, um homem branco que lutava pela abolição da escravidão, na barbearia onde o pai do Henry trabalhava. Teve um tiroteio e o Henry foi levado pelo John que dizia estar libertando o garoto, mas na confusão, ele achou que o garoto era uma menina. Assustado, Henry não desmentiu o mau entendido. Vamos acompanhar como vai ser a vida dele a partir daí.
Além de conhecer alguns detalhes sobre a escravidão nos Estados Unidos, entendemos que não era só dizer que os escravizados estavam livres, era necessário dar condições e suporte para que pudessem viver como as demais pessoas, além de dar voz a eles, parar de silenciá-los. Compre. Resenha.
O 3° livro também está na minha lista de favoritos, É "O Sol é para todos", publicado em 1960, a minha edição é a de 2015, traduzida pelo selo José Olímpio. A autora Harper Lee era branca, mas a trama gira em torno do advogado Atticus Finch que vai defender um negro acusado de estuprar uma mulher branca na década de 30 nos Estados Unidos. Grande parte da população ficou revoltada por Atticus estar defendendo um negro e essa revolta vai respingar nos dois filhos do advogado, a Scout e o Jem.
A história mostra como a discriminação pela cor da pele chegava em níveis espantosos. Além de falar sobre o racismo, o livro fala sobre toda forma de discriminação e preconceito com quem é diferente e não se enquadra em padrões pré-determinados pela sociedade. Um livro emocionante! Compre. Resenha.
Minha quarta indicação é "Nós matamos o cão tinhoso", composto por 8 contos, que vão desde as brincadeiras de crianças e o trabalho árduo em plantações até os conflitos entre brancos e negros, entre colonizadores e nativos. Considerada uma das obras mais importantes da literatura moçambicana e africana, foi publicada em 1964, no mesmo ano o autor Luís Bernardo Honwana foi preso pela sua militância em prol da independência de Moçambique, até então uma colônia portuguesa. A Editora Kapulana publicou essa edição no Brasil em 2017. Não foi um livro que me marcasse tanto quanto a minha próxima indicação, mas é uma leitura muito válida. Compre. Resenha.
"No seu pescoço", da Chimamanda Ngozi Adichie, publicado em 2017 pela Companhia das Letras também é de contos. A maioria dos personagens é nigeriano, a Nigéria é o país onde a autora nasceu, e ela usa a História do país como pano de fundo nas tramas. A imigração para os Estados Unidos é outro tema recorrente, e fica claro como a vida na América é glamourizada pelos que ficam na Nigéria, mas a realidade no novo país tem suas dificuldades, como o racismo, as diferenças culturais, a saudade das suas origens e a solidão. A escrita da autora é sensacional e suas histórias tem temáticas muito atuais. Compre. Resenha.
Minha sexta indicação é "O ano em que disse sim", escrito pela Shonda Rhimes, que teve sua edição brasileira pela Best Seller em 2016. A Shonda é responsável por séries como Grey's Anatomy e Scandal, ganhadora de inúmeros prêmios, na lista das 100 Pessoas Mais Influentes da revista Time e mãe de 3 filhas. Chegou um momento em que ela percebeu que tinha tudo, mas não estava feliz, que estava se escondendo atrás de seus personagens, usando o trabalho como desculpa para se afastar do mundo. Então, decidiu passar um ano dizendo sim para o maior número de convites possível.
O livro mostra o que é ser mulher nos dias de hoje, que significa poder ser o que quiser ser, algo que infelizmente é confundido com ter que ser perfeita em tudo, coisa que nenhum ser humano consegue. E também fala sobre a importância de tornar o mundo da TV mais real, trazendo a diversidade para as telas. Compre. Resenha.
Sétima indicação: "Tudo e todas as coisas" da Nicola Yoon, que nasceu na Jamaica. Li na edição publicada pela Novo Conceito em 2016, mas talvez vocês encontrem mais facilmente na edição nova da Arqueiro. A trama é sobre Madeline, uma garota de 18 anos que não pode sair de casa por ter uma alergia e tudo pode causar uma crise que pode matá-la. Ela convive com a mãe, médica, com a enfermeira Carla, e raramente recebe a visita de um de seus tutores de estudos. Até o Olly se mudar com a família para a casa ao lado e a protagonista começar a se questionar se aquela vida é o suficiente.
Foi um dos livros onde mais marquei citações, além de ser uma leitura muito fluida. E nem sempre uma história com um personagem negro precisa falar sobre racismo, garotas e garotos negros também podem ser protagonistas de romances adolescentes e se verem representados nessas histórias. Compre. Resenha.
E a minha última indicação é "Formas reais de amar", publicado em e-book pela Agência Página 7 em 2018, que traz 4 histórias super criativas com princesas negras nos dias atuais, escrito por 4 autoras de ascendência negra: Val Alves, Solaine Chioro, Lavínia Rocha e Olívia Pilar. Compre. Resenha.
BÔNUS: depois de gravar o vídeo, me lembrei de outro livro que eu amei e que tem autora e protagonista negra, “Marshmallow” da inglesa Dorothy Koomson (Primavera Editorial, 2015). A protagonista aluga a casa de um homem que está se separando e cuidando dos 2 filhos pequenos, abordando temas como a responsabilidade sobre a criação dos filhos, o alcoolismo, a violência sexual, além de destacar o quanto a amizade pode ser a coisa mais importante da vida de alguém. Compre. Resenha.
Sei que o tema não é o meu lugar de fala, mas acredito que possa contribuir para a divulgação da diversidade e da representatividade na literatura, e que além de se divertirem com essas leituras, vocês provavelmente possam ter alguns ensinamentos e reflexões importantes. Espero que vocês tenham gostado das minhas indicações de leitura, se quiserem me indicar outros livros de autores negros ou com personagens negros, podem deixar aí nos comentários. Me contem: já leram ou querem ler algum desses livros?
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Resumo das leituras de setembro
Olá pessoal, tudo bem? Hoje é dia de comentar com vocês um pouquinho sobre as minhas leituras do último mês, vocês podem apertar o play e conferir o vídeo ou continuar lendo:
Eu separei uma pilha com uns dezesseis livros que eu ainda quero ler esse ano, não consegui ler todos em setembro, mas li (clique nos títulos para conferir as resenhas):
Orgulho e Preconceito, romance clássico da Jane Austen na edição da Editora Pé da Letra. Um livro que demora para cativar, mas chega um momento em que não queremos parar de ler.
Em Pedaços, romance da Lauren Layne publicado pela Paralela. Alguns não curtiram, eu gostei bastante, escrita fluida e personagens que me causaram empatia.
A Noiva do Barão, romance de época medieval da Simone O. Marques, Ler Editorial. Uma história sobre um amor proibido.
III - A Hora Morta: volume 1, antologia de contos de terror organizada pelo Fernando Bins, tem contos dos convidados Cesar Bravo e Rô Mierling, publicada pela Luva Editora. Em agosto eu tinha lido o volume 2, então li também o primeiro e trouxe resenha e sorteio para vocês, está super fácil de participar, acessem: Sorteio dos dois volumes de III : A Hora Morta.
O Tempo Desconjuntado, ficção científica do Philip K. Dick lançada em edição com capa dura pela Suma. Apesar de deixar alguns pontos sem respostas, foi um primeiro contato interessante com a escrita do autor e a história nos deixa curiosos.
A Mulher Entre Nós, thriller psicológico das autoras Greer Hendricks e Sarah Pekkanen, editora Paralela. Foi minha melhor leitura do mês, me surpreendi muito com essa história que não é nem de longo sobre uma ex mulher perseguidora!
O sol na cabeça, contos com inspiração autobiográfica do Geovani Martins publicado pela Companhia das Letras. Foi bem diferente das minhas expectativas.
Carta a D., André Gorz fala sobre seu amor por sua esposa nessa obra publicada pela Companhia das Letras.
Acabei demorando para liberar o post, pois queria postar todas as resenhas desses livros primeiro. Vocês já leram ou querem ler algum deles?
♥ Participe dos sorteios que estão rolando: até 20/10 tem sorteio valendo o livro Beco da Ilusãoe sorteio valendo os dois volumes de III : A Hora Morta.
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Resenha: livro "O Sol na Cabeça", Geovani Martins
Olá pessoal, como vocês estão? Na resenha de hoje venho comentar sobre minha experiência de leitura com "O Sol na Cabeça", livro escrito pelo Geovani Martins e publicado em 2018 pela Companhia das Letras.
A obra é composta por 13 contos, sobre os quais vou comentar resumidamente.
Em Rolézim, o narrador fala, com o uso de muitas gírias, sobre um dia quente em que ele e os amigos vão para a praia, usam drogas, aproveitam o calor. Na volta para casa, são parados pela polícia, e o medo de morrer como o irmão ou de decepcionar a mãe, movem o personagem principal. O protagonista de Espiral convive a vida toda com pessoas preconceituosas tendo medo dele, por ser morador da favela, o que lhe machuca e lhe faz passar a alimentar esse medo até níveis perigosos.
Em Roleta-russa, um garoto curioso pega a arma do pai, um segurança, sem que ele saiba e contrariando suas ordens. O garoto vai para a rua exibir a arma para os amigos, dividido entre o exibicionismo e a culpa por saber que decepcionaria o pai se ele descobrisse que estava traindo sua confiança. O caso da borboleta também é protagonizado por um garoto, o Breno, de nove anos, que certa noite, vai à cozinha (uma cozinha que tem janela, assim como a minha) procurar algo para comer e se depara com uma borboleta caída no óleo usado para frituras, é um dos contos mais poéticos do livro.
Em Rolézim, o narrador fala, com o uso de muitas gírias, sobre um dia quente em que ele e os amigos vão para a praia, usam drogas, aproveitam o calor. Na volta para casa, são parados pela polícia, e o medo de morrer como o irmão ou de decepcionar a mãe, movem o personagem principal. O protagonista de Espiral convive a vida toda com pessoas preconceituosas tendo medo dele, por ser morador da favela, o que lhe machuca e lhe faz passar a alimentar esse medo até níveis perigosos.
Em Roleta-russa, um garoto curioso pega a arma do pai, um segurança, sem que ele saiba e contrariando suas ordens. O garoto vai para a rua exibir a arma para os amigos, dividido entre o exibicionismo e a culpa por saber que decepcionaria o pai se ele descobrisse que estava traindo sua confiança. O caso da borboleta também é protagonizado por um garoto, o Breno, de nove anos, que certa noite, vai à cozinha (uma cozinha que tem janela, assim como a minha) procurar algo para comer e se depara com uma borboleta caída no óleo usado para frituras, é um dos contos mais poéticos do livro.
A história do Periquito e do Macaco traz novamente o uso de gírias, ao falar sobre um tenente da UPP, cujo "bagulho não era pegar traficante", mas sim viciado. Esse tenente foi emboscado e morto pelos traficantes. Primeiro dia nos apresenta André, um garoto de onze anos, empolgado por ir para uma escola nova, onde teria outros adolescentes como ele, uma escola onde toda semana tinha "porradeiro" com a turma de outro colégio. Mas no primeiro dia de aula, também enfrentaria um trote, ligado à lenda da Loura do Banheiro.
O rabisco fala de Fernando, um pichador que foi confundido com um ladrão e correu para o terraço do prédio. Embaixo, policiais e a população se aglomerando, aumentando o desespero que Fernando, que foi pai recentemente e tinha decidido deixar a pichação por ser arriscado.
"Chegam sem entender o que está acontecendo, se informam do motivo da aglomeração, e então são envolvidas pela rua e a sua incrível capacidade de transformar pessoas comuns, que amam e choram, que sentem fome e saudade, em algo completamente diferente, numa unidade capaz de ir além dos limites de cada um dos indivíduos reunidos, que não se incomoda em ver o sangue escorrendo pela roupa do objeto atingido, se isso satisfizer a sua noção de justiça no momento exato do choque. Era mais uma vez a sede de fazer justiça contra o desconhecido, como sempre foi, desde o início dos tempos." (página 54)
"Fernando sabia que esperando ali não corria o risco de levar um tiro à queima-roupa. Não com tanta gente acompanhando a história, dentro de um prédio residencial. Com certeza levaria um couro bem dado. Chutes e socos descontando a espera e sabe-se lá quantas outras frustrações.
O foda é que porrada também mata. Impossível esquecer o tanto de amigo que se foi depois de apanhar na pista, com traumatismo craniano, hemorragia interna. E, mesmo que não fosse sua hora, que sobrevivesse à surra, ia precisar explicar em casa aqueles hematomas todos, e saberiam que voltou a pichar, que cedeu ao vício, e o jugariam fraco e também hipócrita, por viver reclamando que seu pai o havia trocado pelo álcool e agora trocava seu filho por tinta." (página 57)
A viagem se passa próximo a virada de ano, onde o personagem principal vai com a garota que ele está começando a namorar e um amigo para Arraial do Cabo, aproveitar o feriado na casa de um primo argentino desse amigo. Drogados, vão passear e passarão por uma situação inusitada por uma confusão.
Em Estação Padre Miguel, um grupo de amigos se reúne na linha do trem para fumar maconha. Estava proibido pelos traficantes o uso de crack na região, mas até os amigos explicarem que "focinho de porco não é tomada" na mira de uma arma...
"A noite protegia os que tinham medo de explanar o vício. Quando escurecia, na linha do trem ninguém tinha mais nome nem rosto para quem passasse de fora, era tudo um único monte de viciado." (página 72)
"É engraçado, porque no auge do crack pelas ruas de Bangu, assim como todo mundo, eu ria de piada de cracudo, fazia piada de cracudo, mas a verdade é que, nas vezes que me demorava demais na cracolândia, começava a imaginar as histórias daquelas pessoas antes da pedra e sentia vontade de chorar." (página 72)
"Sorri da precisão que tive prevendo aquelas palavras. Essas conversas repetidas às vezes me enchiam o saco, por fazerem parecer que estávamos sempre repetindo os dias. Mas algumas vezes eu me envolvia, e conseguia sentir todo o prazer contido nas conversas decoradas.
- Vocês só falam de droga, nunca vi.
- Isso é porque o mundo tá drogado, irmão. Até parece que tu não sabe. Já te falei, vou falar de novo: uma semana sem drogas e o Rio de Janeiro para. Não tem médico, não tem motorista de ônibus, não tem advogado, não tem polícia, não tem gari, não tem nada. Vai ficar todo mundo surtando de abstinência. Cocaína, Rivotril, LSD, balinha, crack, maconha, Novalgina, não importa, mano. A droga é o combustível da cidade.
O Alan adorava falar isso, a gente adorava ouvir.
- A droga e o medo - concluí. (páginas 74 e 75)
"Eu nunca entendi esse movimento. Quero dizer, sempre me senti profundamente incomodado com esses silêncios inexplicáveis. É sempre como se alguma coisa estivesse rompendo. De um momento pro outro tudo se desfaz, tudo desaba, e ficamos sozinhos frente ao abismo que é a outra pessoa. Daí vem uma vontade de falar não sei o quê, só pra tentar reunir uns pedaços da gente, meia dúzia de restos espalhados pelo mistério que é a convivência." (página 75 e 76)
O cego é sobre Seu Matias, um homem cego que contava sua história em ônibus.
"Quando pequeno, Matias não suportava a companhia de outras crianças, tagarelando sobre tudo numa velocidade absurda, atropelando os assuntos, embolando as vozes, sobrepondo imagens; as palavras voavam sempre pra muito longe. Por esse motivo, preferia conversar com os velhos, esses sempre tinham paciência pra tentar explicar detalhadamente a forma de cada coisa, de um jeito tão cuidadoso como só mesmo a solidão dos velhos permite. O céu, os rios, os ratos, a chuva, as pipas no alto, o arco-íris, tudo isso que é dito sem pensar no passar dos dias." (página 86)
O mistério da vila foi meu conto favorito. Dona Iara, uma senhora bem idosa, é conhecida como a macumbeira, alvo da curiosidade das crianças e dos comentários ofensivos de quem tem religiões diferentes, mas que nas horas de desespero, recorrem às rezas dela. Até que dona Iara fica doente, e as crianças vão perceber o quanto ela é importante para eles, independente da religião. Um conto que mostra a hipocrisia de alguns, mas também mostra que Deus é um só.
Esse é um resumo muito superficial dos contos. "O Sol na Cabeça" teve bastante divulgação no lançamento. O Geovani é poucos meses mais velho do que eu, e como seus contos, segundo a orelha, têm inspiração autobiográfica, eu estava com expectativas elevadas para conferir esse livro tão elogiado no lançamento e curiosa para ver o que tinha para dizer alguém que viveu na mesma época que eu, mas em lugares diferentes (o autor nasceu em Bangu e morou no Vidigal).
É inegável a capacidade do autor de escrever contos que quase dão um nó na nossa cabeça pelo uso constante de gírias, que talvez nem todos entendam, e no conto seguinte, já utilizar uma linguagem mais sensível e poética. Muitas das situações vividas pelos personagens, muitos dos seus inquietamentos, das suas dúvidas sobre a vida, são situações e pensamentos com os quais os leitores podem se identificar. Alguns contos, como "Roleta-russa" e "O rabisco", terminam justo no momento em que estamos mais tensos para saber o que acontecerá em seguida... Essa diversidade na escrita, essa identificação e as emoções passadas ao leitor são pontos positivos da obra, mas que infelizmente não fizeram "O Sol na Cabeça" superar as minhas expectativas.
Em certo momento, eu já estava cansada de ver as histórias sendo protagonizadas por usuários de drogas ou traficantes, mais da metade dos contos é sobre eles, ficou repetitivo, maçante. Me parece absurdo, por exemplo, ir para a casa de uma pessoa que você nem conhece, com uma garota com quem se está começando um relacionamento, e levar drogas, como acontece em "A viagem". No nosso país, quem usa maconha, está ciente de que pode ser parado pela polícia e ter problemas, ou seja, está buscando encrenca com as próprias mãos (alguns contos mostram como o risco não vale a pena). Eu e os meus amigos nunca precisamos estar sob o efeito de drogas para nos divertirmos juntos nem para termos reflexões sobre a vida ou nos aproximarmos de outras pessoas. Por que alguém precisa estar fora de si para viver? E não é só em cidade grande que tem gente que ganha pouco e trabalha onde não é valorizado, essa é uma realidade de muitos brasileiros, que nem por isso descontam suas frustrações nas drogas.
Apesar de discordar das atitudes de alguns personagens e de ter achado cansativo a repetição de alguns temas, pela versatilidade da escrita do autor e por saber das diferentes realidades do nosso país, acredito que "O Sol na Cabeça" possa proporcionar experiências de leitura, no mínimo, interessantes. A edição traz uma capa com cores vibrantes, páginas amareladas, boa revisão e diagramação. E vocês, já leram ou querem ler o livro?
Detalhes: 122 páginas, ISBN-13: 9788535930528, Skoob. Clique para comprar na Amazon:
"Sem comentar com ninguém, Thaís passou toda a semana pedindo a Jeová pela vida de dona Iara. Colocou a velha em todas as suas orações diárias; até na congregação, na reunião de domingo, pediu por ela, mesmo sem saber se era pecado orar pela macumbeira dentro da casa de Deus.Sextou é protagonizado por um rapaz que vai comprar droga com o pagamento da primeira semana de trabalho, mas dá de cara com os policiais. Travessia traz Beto, que trabalhava numa boca, matou um cara e agora tinha que dar um jeito de sumir com o corpo.
Ruan ficou muito abatido, enfiado em casa, brincando sozinho, sem sorriso nem barulho. A avó, percebendo tristeza no garoto, perguntou se havia brigado com os amigos.
- Eu não quero que a dona Iara morra, vó. Você lembra quando ela veio aqui e acabou com os carrapatos? Não fosse por isso, o Máilon tava morto hoje, sem sangue, eu lembro.
A velha, comovida, aconselhou:
- Pois então peça a Deus por ela, meu filho. Ou melhor, pede pra um santo. Se você tiver fé, ele te ajuda com Deus. E, com santo pedindo, Nosso Senhor sempre atende." (página 95)
Esse é um resumo muito superficial dos contos. "O Sol na Cabeça" teve bastante divulgação no lançamento. O Geovani é poucos meses mais velho do que eu, e como seus contos, segundo a orelha, têm inspiração autobiográfica, eu estava com expectativas elevadas para conferir esse livro tão elogiado no lançamento e curiosa para ver o que tinha para dizer alguém que viveu na mesma época que eu, mas em lugares diferentes (o autor nasceu em Bangu e morou no Vidigal).
É inegável a capacidade do autor de escrever contos que quase dão um nó na nossa cabeça pelo uso constante de gírias, que talvez nem todos entendam, e no conto seguinte, já utilizar uma linguagem mais sensível e poética. Muitas das situações vividas pelos personagens, muitos dos seus inquietamentos, das suas dúvidas sobre a vida, são situações e pensamentos com os quais os leitores podem se identificar. Alguns contos, como "Roleta-russa" e "O rabisco", terminam justo no momento em que estamos mais tensos para saber o que acontecerá em seguida... Essa diversidade na escrita, essa identificação e as emoções passadas ao leitor são pontos positivos da obra, mas que infelizmente não fizeram "O Sol na Cabeça" superar as minhas expectativas.
Em certo momento, eu já estava cansada de ver as histórias sendo protagonizadas por usuários de drogas ou traficantes, mais da metade dos contos é sobre eles, ficou repetitivo, maçante. Me parece absurdo, por exemplo, ir para a casa de uma pessoa que você nem conhece, com uma garota com quem se está começando um relacionamento, e levar drogas, como acontece em "A viagem". No nosso país, quem usa maconha, está ciente de que pode ser parado pela polícia e ter problemas, ou seja, está buscando encrenca com as próprias mãos (alguns contos mostram como o risco não vale a pena). Eu e os meus amigos nunca precisamos estar sob o efeito de drogas para nos divertirmos juntos nem para termos reflexões sobre a vida ou nos aproximarmos de outras pessoas. Por que alguém precisa estar fora de si para viver? E não é só em cidade grande que tem gente que ganha pouco e trabalha onde não é valorizado, essa é uma realidade de muitos brasileiros, que nem por isso descontam suas frustrações nas drogas.
Apesar de discordar das atitudes de alguns personagens e de ter achado cansativo a repetição de alguns temas, pela versatilidade da escrita do autor e por saber das diferentes realidades do nosso país, acredito que "O Sol na Cabeça" possa proporcionar experiências de leitura, no mínimo, interessantes. A edição traz uma capa com cores vibrantes, páginas amareladas, boa revisão e diagramação. E vocês, já leram ou querem ler o livro?
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Resenha: livro "Carta a D.", André Gorz
Olá pessoal, tudo bem? Na resenha de hoje venho comentar sobre minha experiência com o livro "Carta a D.", escrito pelo André Gorz e lido na edição lançada em 2018 pela Companhia das Letras.
"Eu não posso me imaginar escrevendo se você não mais existir. Você é o essencial sem o qual todo o resto, importante apenas porque você existe, perderá o sentido e a importância." (página 99)
André Gorz foi um filósofo e escritor. Filho de pai judeu, foi enviado pela família da Áustria para a Suíça durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, se mudou para a França. No livro, ele conta como conheceu Dorine, como decidiram se casar, como passaram por dificuldades nos primeiros anos, Gorz fala sobre seu trabalho como escritor, sobre a saúde da esposa que foi se debilitando por causa de uma doença degenerativa incurável, mas fala principalmente sobre seu amor e sua admiração por Dorine.
Em 2007, cerca de um ano após a publicação de Carta a D., André e Dorine, ambos com mais de oitenta anos, se suicidaram juntos, pois um não queria ter que viver sem o outro.
"Havia ali como que um eco do pensamento de Jacques Ellul e de Günther Anders: a expansão das indústrias transforma a sociedade em uma gigantesca máquina que, em vez de libertar os humanos, restringe seu espaço de autonomia e determina como e quais objetivos eles devem perseguir. nós nos tornamos os serviçais dessa megamáquina. A produção não está mais ao nosso serviço, nós é que estamos a serviço da produção. E em razão da profissionalização simultânea dos serviços de todos os tipos, tornamo-nos incapazes de cuidar de nós mesmos, de autodeterminar as nossas necessidades e de satisfazê-las pro nossa conta: dependemos, para tudo, de 'profissões incapacitantes'." (páginas 85 e 86)
Sendo o autor um filósofo, ele coloca algumas reflexões filosóficas na obra. Sendo uma carta de Gorz para sua esposa, é um livro bem curtinho e que pode ser lido em poucas horas. Eu tinha receio de me debulhar em lágrimas com essa leitura, mas não cheguei a esse ponto, talvez pelo fato de ser um livro breve para relatar a história de um casal que viveu mais de oitenta anos.
Ainda assim, há momentos bem fortes na trama, como quando Dorine quis aprender alemão, e Gorz disse "'Não quero você aprenda nem uma palavra dessa língua (...) Nunca mais vou falar alemão'" (página 57), algo compreensível para quem viveu a perseguição nazista contra o seu povo. É interessante observar as menções aos períodos históricos que o casal vivenciou, e eu adoraria ler uma biografia dos dois.
Igualmente interessante é ler os elogios que Gorz faz à esposa. Poder envelhecer ainda amando e sendo amado, ainda sentindo aquela necessidade de estar ao lado da pessoa amada, sem dúvidas é uma dádiva.
"O livro não é mais o 'meu pensamento', uma vez que este se tornou um objeto no meio do mundo, algo que pertence aos outros e me escapa." (páginas 66 e 67)
"O escrevedor só se tornará um escritor quando sua necessidade de escrever for sustentada por um tema que permita e exija que essa necessidade se organize num projeto." (página 42)
Na edição da Companhia das Letras, o livro vem dentro de uma espécie de caixa, cujo nome acredito ser luva, e tem um tamanho menor que as edições normais. A capa traz uma foto do autor e sua esposa. Não encontrei erros de revisão. As páginas são amareladas, a diagramação tem letras, margens e espaçamento de bom tamanho.
"Estou atento à sua presença como estive desde o início, e gostaria de fazê-la sentir isso. Você me deu toda sua vida e tudo de si, e eu gostaria de poder lhe dar tudo de mim durante o tempo que nos resta.
Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o meu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas." (página 101)
"Carta a D." foi uma leitura que gostei e que recomendo, acho que a história de amor entre André Gorz e Dorine pode ser inspiradora. Por hoje é só, espero que tenham gostado do post.
Detalhes: 112 páginas, ISBN: 9788535930979, Skoob. Curiosidade: Uma música de Kathleen Ferrier é mencionada no livro, pesquisando pelo trecho que consta na obra: "Die Welt ist leer, Ich will nicht leben mehr", que segundo a Nota Técnica, em alemão quer dizer "O mundo está vazio, não quero mais viver", encontrei essa música no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=p77JoONFX8U, vale a pena ouvir, é de arrepiar. Leia um trecho. Clique para comprar na Amazon:
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Resenha: livro "Persépolis", Marjane Satrapi
Olá pessoal, tudo bem? Na resenha de hoje venho comentar sobre minha experiência de leitura com o livro "Persépolis", escrito pela Marjane Satrapi e publicado em 2007 pelo selo Quadrinhos na Cia da editora Companhia das Letras.
"Perséplis" é uma autobiografia em quadrinhos da Marjane Satrapi, que nasceu no Irã (antiga Pérsia) em 1969. Ela é bisneta de um imperador do país, e toda sua família foi marcada pelas disputas de poder que ocorreram no Irã. Quando ela tinha 10 anos, passou a ser obrigatório para as garotas o uso do véu, e esse foi só o começo da repressão imposta pelo governo islâmico de vertente xiita. Sucedeu-se a isso, um período de guerra (uma delas foi entre Irã e Iraque), e os pais da Marjane, que queriam que a filha pudesse crescer livre, ter um futuro longe daquela ditadura, enviaram a garota, então com 14 anos, para a Áustria.
Eu leio poucas histórias em quadrinhos, então, não sou especialista no assunto, mas gostei bastante do traço de "Persépolis", a obra consegue passar claramente as emoções. Sendo uma graphic novel/HQ, é uma leitura rápida. Eu tinha expectativas elevadíssimas sobre a leitura, mas a história foi diferente do que eu imaginava, visto que é um relato real de uma garota que precisa crescer sozinha, longe de seu amado país, que está mergulhando nas trevas.
"Na vida você vai encontrar muita gente idiota. Se te ferirem, pensa que é a imbecilidade deles que os leva a fazer o mal. Assim você vai evitar responder às maldades deles. Porque não tem nada pior no mundo do que a amargura e a vingança... Seja sempre digna e fiel a você mesma.
O que temos em "Persépolis" é a história do Irã, marcada por disputas do poder, e a história de Marjane, uma garota criada numa família politizada e liberal, que via na educação um futuro de independência para a filha. Vemos como Marjane sofreu ao ter que se separar de sua família e ir para outro país, como ela era vítima de preconceito na Europa por sua origem e como ela já não se sentia mais uma iraniana quando visitava sua terra natal, nem uma europeia quando estava na Áustria. Se a adolescência já é um período complexo, imagine quando se está longe de casa, da família e dos amigos! Marjane teve altos e baixos, foi tocante vê-la como uma menina sonhadora e com uma proximidade encantadora com Deus no início, e depois ver os caminhos que ela trilhou, quase se perdendo de si mesma, para posteriormente ir em busca de sua essência.
É possível observar como a guerra, mesmo que seja em países e em décadas diferentes, tem sempre elementos semelhantes: morte, destruição, mutilações, torturas, vidas interrompidas, soldados muitos jovens e despreparados sendo obrigados a ir para o combate, perda de civis, traumas causados em pessoas que se assustam com qualquer barulho pensando que pode ser um tiro ou uma bomba, manipulação do povo pelos governantes... E tudo isso por sede de poder, por ganância.
Foi interessante conhecer um pouco mais sobre a vida num país islâmico, ver as formas encontradas para conseguir sobreviver com tanta repressão: as festas clandestinas, e até mesmo os estudos clandestinos. Deve ser difícil ver a terra que você ama regredindo. Algo que é dito, é que o medo é usado para controlar, enquanto a pessoa se preocupa se o véu não esta mostrando cabelo demais, se a roupa não está colada demais para ser considerada um crime passível de chibatadas, ela se esquece de pensar sobre a situação política do país.
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"O regime tinha entendido que uma pessoa que saía de casa se perguntando: 'Será que minha calça está justa demais?', 'Meu véu está no lugar?', 'Dá pra ver minha maquiagem?', 'Será que vão me dar chibatadas?', não se perguntava mais: 'Cadê minha liberdade de pensamento?', 'Cadê minha liberdade de expressão?', 'Minha vida é passível de ser vivida?', 'O que está acontecendo nas prisões políticas?' Normal! Quando temos medo, perdemos o senso de análise e de reflexão, o terror nos paralisa. Aliás, o medo sempre foi o motor de repressão em todas ditaduras. Mostrar os cabelos ou se maquiar viraram, obviamente, atos de rebeldia."
"Descartes e Marx estavam lá. 'O mundo material não existe, é apenas um reflexo da nossa imaginação.' 'Vai nessa!' 'Quer dizer que você vê esta pedra na minha mão mas ela não existe, está apenas na sua imaginação?' 'Isso mesmo.' 'Ai, ai. O que você está fazendo, Karl? Você quebrou a minha cabeça.'"
"'Deram isso pro meu filho na escola. Disseram que, se eles combaterem e tiverem a sorte de morrer, vão entrar no paraíso com essa chave.' (...) 'Eu sofri tanto... Suei muito pra criar meus 5 filhos. Agora esses senhores querem trocar o mais velho por essa chave...'"
"A verdade é que, enquanto existir petróleo no Oriente Médio, não vamos saber o que é paz..."
"Como você sabe, por lei, não se pode matar uma virgem... Então casam a garota com um guardião da revolução... Que a estupra antes de executá-la!"
"Persépolis" havia sido lançada inicialmente em quatro volumes, que depois foi reunida nessa edição que estou resenhando. A capa representa um momento em que Marjane "sente o ar" do Mar Cáspio (um lugar importante do seu país) no rosto antes de partir, ela está se abastecendo de memórias. A HQ é em branco e preto, com boa revisão e tamanho de letras.
"Persépolis" foi uma história que eu gostei e que recomendo, não só por ser praticamente um "romance de formação" pela vida da Marjane Satrapi, mas também para que reflitamos sobre e estejamos sempre atentos à essa relação entre governantes e governados, algo importantíssimo no momento que nosso país vive. Espero que tenham gostado da resenha de hoje. Me contem: já conheciam a obra ou a autora?
Detalhes: ISBN-13: 9788535911626, 352 páginas, Skoob. Clique para comprar na Amazon:
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Até o próximo post!
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