Resenha: livro "A Senhora de Wildfell Hall", Anne Brontë

 Olá pessoal, tudo bem? Na resenha de hoje venho comentar sobre minha experiência de leitura com o livro "A Senhora de Wildfell Hall", escrito pela inglesa Anne Brontë. Publicado pela primeira vez em 1848, sob o pseudônimo masculino de Acton Bell, a obra chegou a ter partes cortadas em edições posteriores por mostrar as diferenças de poder entre homens e mulheres na sociedade da época. Em 2017 a Editora Record publicou a edição integral, sem cortes, que eu venho resenhar para vocês.

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 Sobre a história: Gilbert Markham é o narrador. Ele era um rapaz de vinte e poucos anos, que cuidava da fazenda deixada pelo pai. Morava com a mãe e dois irmãos pouco mais novos: Rose e Fergus. Perto de sua fazenda, havia um antigo casarão que pertencia ao Sr. Lawrence (um rapaz mais ou menos da idade de Gilbert): Wildfell Hall. Quando esse casarão recebeu novos moradores, só se falava nisso no povoado onde Gilbert morava, ainda mais pelo fato de a casa ter sido alugada pela jovem viúva Helen Graham, que foi morar lá apenas com seu filho de cinco anos de idade (Arthur) e uma criada.

 Entre um passeio no campo, um bate-papo sobre um livro, brincadeiras com o pequeno Arthur, Gilbert acabou se aproximando da Senhora Graham. Na verdade, ele estava encantado por ela, apaixonado. Mas por qual motivo Helen negava-se a aceitá-lo como um possível pretendente se todos os indícios apontavam que o interesse era recíproco? Em meio a isso, rumores sobre a origem da Sra. Graham começaram a ser espalhados no povoado. Seriam verdadeiros esses boatos e Gilbert teria se enganado completamente sobre a mulher por quem havia se apaixonado?

 Para tentar elucidar essas questões, Helen permitiu que Gilbert lesse o seu diário, para que pudesse entender como, até anos antes, ela era uma jovem alegre e cheia de vida, e o que tinha acontecido para que ela precisasse ir morar numa casa isolada e em más condições, tornando-se tão séria e reclusa. Parte das descobertas de Gilbert eu vou compartilhar com vocês, o restante vocês precisaram ler para compreender quais segredos Helen guardava.

 Relação com os dias atuais: Mesmo tendo sido escrito no século dezenove, "A Senhora de Wildfell Hall" ainda apresenta aspectos que podem ser vistos nos dias atuais. Ainda há garotas de dezoito anos que, como Helen, acreditam que podem mudar um homem, que o amor que sentem e a sua força de vontade bastará para transformá-lo e afastá-lo dos vícios. E, infelizmente, ainda há homens como o pai de Arthur, que se recusam a crescer, a assumir as responsabilidades que tem com a família, ainda mais com a sociedade aplaudindo seus atos, dizendo que "homem é assim mesmo", que "homem pode". Isso gera relacionamentos abusivos.

 "- Por-que, minha querida, a beleza é uma qualidade que, assim como o dinheiro, em geral atrai o pior tipo de homem; e, portanto, é provável que traga problemas para quem a possui. (...)
 - Bem, eu não serei descuidada nem fraca.
 - Lembre-se de Pedro, Hele! Não se vanglorie e fique aleta. (...) Se se casar com o homem mais bonito, mais talentoso e mais superficialmente agradável do mundo, mal sabe a desgraça que vai se abater sobre você se, no fim das contas, descobrir que ele é um depravado indigno, ou mesmo um tolo inútil.
 - Mas o que farão os pobres, tolos e depravados, tia? Se todos seguissem seu conselho, o mundo logo acabaria.
 - Não tema, minha querida! Os tolos e os depravados sempre encontrarão parceiras enquanto tiverem tantos equivalentes no sexo feminino. Que você siga o meu conselho. E isso não é assunto para brincadeiras, Helen. Lamento que esteja tratando dele de forma leviana. Acredite, o matrimônio é algo muito sério." (página 140)

 Nos dias de hoje, se uma mulher é agredida pelo seu companheiro, ela tem leis que a protegem e pode trabalhar para cuidar dos filhos que tiver. Mas era diferente na época de Helen, fazendo com que as mulheres tivessem que continuar num casamento onde sofriam violência física e psicologica, e ver seus filhos sendo deseducados pelos pais sem ter poder para intervir. Há cenas de agressão no livro: um homem nobre agredindo sua esposa e ninguém podia fazer nada, ela só podia rezar e torcer para que ele um dia melhorasse. Um tipo de comportamento comum na sociedade da época, mas que os editores que censuraram trechos da obra (em sua maioria, homens), não gostariam que fosse mostrado por "denegrir os homens em geral".

 "- (...) sua tarefa é ser feliz, e a dela é fazê-lo feliz." (página 65, um dos absurdos que a mãe do Gilbert dizia para o filho a respeito dos casamentos na época, onde a esposa deveria viver em função do marido)

 Outro ponto bem visível é como as mulheres eram tratadas como seres sem opinião, com pretendentes insistentes que não desistiam mesmo quando a moça dizia com todas as letras que não queria se casar com ele, mas ele continuava insistindo e dizendo que esse casamento seria o melhor para ela, e nos dias de hoje ainda é possível presenciar casos onde a opinião da mulher é ignorada, como se ela não fosse capaz de saber o que é melhor para si.

 Clássico e romance de época: "A Senhora de Wildfell Hall" pode ser classificado como um clássico, pela época em que foi escrito, e também como um romance de época. Eu recomendo bastante ele para os fãs de romances de época, já ressaltando que, por ele ter sido em um outro século, não são descritos em detalhes as partes mais íntimas de um relacionamento, mas é muito bom para quem gosta de ver como eram os costumes da época, as reuniões, as conversas. A tradução foi bem feita, preservando o estilo de escrita da época mas sem colocar termos difíceis ou em desuso, podem ler sem medo!

 Narração: Gilbert começa a narrar como se estivesse escrevendo uma carta para um amigo, contando-lhe finalmente sobre seu passado, com a narração alternando depois para os trechos do diário de Helen e voltando novamente para Gilbert. Num primeiro momento, eu estava gostando mais da narração feita por Gilbert, mas depois, quando me aprofundei nos relatos de Helen, me vi tão envolvida quanto nos outros trechos. É visível a diferença entre as pessoas com quem Gilbert convivia, numa vida bem mais simples, onde todos se conheciam e conversavam, se chamando pelo primeiro nome, e as pessoas com quem Helen convivia, muito mais presas às convenções sociais, o que acrescenta um outro empecilho ao relacionamento dois dois: a diferença de classes sociais.

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As páginas 40 e 41 tem trechos tão interessantes que resolvi fotografar as duas, ao invés de tentar copiar apenas algumas citações. Clicando na imagem ela será ampliada e vocês podem ler.
 A edição da Record traz uma capa discreta mas bonita, boa revisão, páginas amareladas, diagramação simples com letras, margens e espaçamento de bom tamanho.

 "- (...) Sim; me causou um dano que nem você, nem ninguém jamais poderá reparar: destruiu o frescor e a esperança de minha juventude e transformou minha vida num deserto! Mesmo que eu viva cem anos, jamais irei me recuperar dos efeitos desse golpe terrível, nem jamais o esquecerei! Daqui em diante... está sorrindo, Sra. Graham! - disse, parando de falar abruptamente, com minha declaração furiosa interrompida por sentimentos inexprimíveis ao ver que ela sorria diante da descrição da ruína que causara.
 - Estava? - perguntou ela, erguendo o rosto com uma expressão séria.  - Não me dei conta. Se estava sorrindo, não foi de prazer ao pensar no mal que lhe causei. Deus sabe que a mera possibilidade de isso acontecer me atormentava. Foi de alegria por ver que você tem sentimentos e alma, e graças à esperança de não ter me enganado por completo em relação aos seus méritos. Mas os sorrisos e as lágrimas são muito parecidos para mim: eles não se limitam a um sentimento em particular. Muitas vezes, choro quando estou feliz e sorrio quando estou triste." (página 135, Gilbert, em seu momento dramático e sensível)

 Anne Brontë me fez odiar com todas as forças o pai do Arthur (que chegava ao ponto de definir seu filho, um bebê, como alguém de "completa inutilidade" e "imperturbável estupidez") e seus amigos, me encantou com as peculiaridades dos personagens que moravam no povoado de Gilbert, me fez gostar dele, com seu jeito inocente, o que é muito importante num romance, e me fez admirar a determinação de Helen, uma verdadeira heroína, pois eu não teria aguentado algumas provações que ela suportou. A maioria dos 53 capítulos são curtos, visto que seriam as cartas escritas por Gilbert, o que nos ajuda a querer ler "só mais um capítulo" para descobrir o que acontecerá em seguida. Enfim, eu gostei muito de "A Senhora de Wildfell Hall" e recomendo a leitura.

 Detalhes: 504 páginas, Skoob, ISBN-13: 9788501080691, leia um trecho. Onde comprar online: AmazonSaraivaCuriosidades: Anne é a irmã caçula da Charlotte (autora de Jane Eyre) e da Emily (O morro dos ventos uivantes), após conhecer a escrita de uma das Brontës, já quero ler todos os livros das outras irmãs. Anne morreu aos 29 anos, vítima da tuberculose. As três irmãs precisaram adotar pseudônimos masculinos para que suas obras fossem publicadas. "A Senhora de Wildfell Hall" é considerado o primeiro romance feminista.

 Por hoje é só, espero que tenham gostado do post. Me contem: já conheciam a obra? Conseguem imaginar o segredo de Helen? Já leram e recomendam algum livro das irmãs Brontë?


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15 comentários

  1. Olá. pela resenha pude perceber que mistério é o que não falta nesse livro, e poder ler um romance de época atípico dos atuais pode ser uma experiência muito interessante. Beijos.

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  2. Fiquei curiosa para saber quais foram esse cortes na edição e fico feliz que a editora tenha publicado tudo.
    Parece ser uma história bem misteriosa e envolvente.
    Confesso que tenho uma certa dificuldade em ler obras mais antigas, mas tenho interesse, há um tempo, em conhecer a escrita da Anne Brontë.
    A autora me parece que nos faz ter um misto de emoções durante a leitura desse livro. E a história parece ser bem bacana.
    Beijos
    Caroline Garcia

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  3. Olá! !
    Eu gosto muito de romances de época e adorei o enredo desse ..
    Gosto quando livro foca em coisas reais, aquilo que muitas vezes aconteceu .. Um livro que vai tratar a violência doméstica em uma época em que as mulheres não eram protegidas e nem tinham direito algum a não ser aguentar !!

    Espero gostar tanto da leitura quanto você ! O livro parece ser incrível !

    Bjos

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  4. Eu sei que eu não devo julgar o autor e tal, mas eu tive um péssima experiência com irmã da Anne, a Emily Bronte, que escreveu O Morro dos Ventos Uivantes. Eu detestei o livro. Ele só me trouxe sentimentos tristes, dos piores mesmo. Só que a Anne, teve a ousadia de escrever uma carta dizendo que os leitores que não gostaram do livro que a irmã escreveu é porque eram "burros" para entender a complexidade que o livro exigia. Um escritora dizendo isso ficou ofensivo. Já não curti muito o que ela falou e tive uma má impressão.
    Apesar disso, eu gostei muito da história que ela abordou aqui (diferente da irmã). Trouxe temas bem atuais. Claro que o livro dela teve cenas cortadas. Nem sei como ela conseguiu publicar o livro... só pelo pseudônimo mesmo. Machismo agride tanto não só as mulheres como a sociedade em geral.
    Senti empatia pela Helen. Ela parece ser bem madura, até por ter sido casada e ter um filho.
    Vou dar uma conferida.
    Abc

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  5. MARI!
    Sou admiradora fiel da autora, porque ela era uma mulher a frente de seu tempo e acho um absurdo que naquela época tivesse que usar um pseudônimo masculino para poder ver sua obra editada. Acredita que ainda tem muito disso hoje? Conheço alguns casos que não vem ao caso agora...
    Quanto ao livro, realmente tem alguns aspectos daquela época que para nós, é revoltante, nem aceitamos direito, né?
    Deve ser um ótimo livro com essa nova edição, porque veio completa e gostaria de poder ler.
    “Não saber é o que torna nossa vida possível.” (Lya Luft)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE JULHO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  6. Oi Mari, tudo bem? Eu não conhecia a obra, mas já fiquei bem interessada pela premissa! Só li um livro da Anne e gostei da narrativa dela, quero conferir!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  7. nossa que tema tão atual! E que escritora corajosa para a época dela! Hoje, onde os livros de época mostram romances lindos e maravilhosos, esse vem de lá trás, e nós mostra como nada é um mar de rosas. Perfeito!

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  8. Acho que muitas mulheres deveriam ler este livro. A capa é linda com certeza eu compraria, agora pela historia, sim eu compraria. É aquele livro que nos deixa pensando e acaba nos ensinado algo.
    A resenha está perfeita parabéns.

    Visitem meu blog!
    garotaeraumavez.blogspot.com.br
    Obrigada!

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  9. Olá!
    Nunca li esse livro mas tenho muita curiosidade de ler os livros da autora e da irmã. São livros muito importantes para as mulheres com reflexões muito legais (:
    Beijos

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  10. Oi Maria ;)
    Já sabia que a irmã da Emily Brontë tinha escrito um livro, mas não fazia ideia sobre o que era a história.
    O Morro dos Ventos Uivantes foi um dos piores livros que já li, na verdade nem consegui terminar, mas como não é a mesma autora né, posso dar uma chance.
    Que legal que mesmo sendo um livro de época, podemos ver alguns aspectos que podem ser observados nos dias de hoje. E achei essa capa linda *-*
    Também tenho interesse em ler Jane Eyre, que já ouvi falar muito bem e gosto do filme.
    Bjos e obrigada pela indicação

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  11. Parece ser um livro muito bom, adorei a resenha.
    O tema é bem forte, fiquei com vontade de conhecer.

    Beijos Ariane
    Blog LivrosdaNane

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Eu não conhecia este livro, mas após ler sua resenha já adicionei ele em minha lista de leituras, é um assunto que apesar do livro ter sido escrito em uma época diferente da de agora, ainda tem diversas coisas em comum com os dias de hoje, e a autora foi muito corajosa de ter escrito um livro forte como este na época dela, fiquei muito ansiosa para ler este livro.

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  14. Oi, Maria!!
    Nossa nunca imaginar que esse livro tivesse sido escrito em 1848, sem dúvida e bem difícil ler uma estória onde as mulheres eram tratadas como objetos e sacos de pancadas e que infelizmente não existia leis para proteger essa mulher vitima de violência.
    Beijoss

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  15. Uau, um clàssico dos clàssicos! Todos os livros relacionados as irmãs Bronte me interessa. São obras fascinantes que não podem ser esquecidas. Esse livro vou ler com toda certeza, espero que o final seja feliz.

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