Resenha: livro "Pó de parede", Carol Bensimon

 Olá pessoal, tudo bem? Na resenha de hoje, venho comentar sobre minha experiência de leitura com "Pó de parede", livro escrito pela Carol Bensimon e publicado pela Não Editora em 2017.

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 "(...) pensou como seria bom se ainda houvesse dancinhas, se ainda houvesse dancinhas possíveis, e que vida difícil era essa que nos fazia entender as coisas só quando saíamos do lugar. Mas parecia tão tarde. E caminhou devagar. O vento soprava mais forte. Ouvia o ranger dos balanços. E para que os balanços soltos no vento da madrugada não a assombrassem, seria preciso enroscar as suas correntes. Seria preciso imobilizá-los e esperar pela paz das não-lembranças." (página 58)

 O livro é composto por três histórias independentes, ligadas apenas pela presença de construções. A primeira se chama "A Caixa", e nos apresenta Alice, uma garota que morava com os pais numa casa que foi o grande projeto de um arquiteto e que, por isso, era muito diferente de todas as casas do bairro, inclusive era apelidada de Caixa e alvo da curiosidade dos vizinhos.

 Alice acabava sendo vítima de bullying por parte dos colegas por morar numa casa tão excêntrica, mas tinha em Tomás um amigo, e também havia Laura, aparentemente uma garota perfeita, mas que escondia um espírito transgressor e rebelde.

 A história vai e volta no tempo, alternando entre os anos noventa e dois mil, o que nos permite ver como esse trio de personagens e a amizade deles foi crescendo ao longo dos anos. A história mostra o conflito de gerações, onde os pais de Alice foram influenciados pelo movimento hippie, enquanto a garota admirava a "normalidade" da vida da família de Laura. E mostra também que, algumas vezes, um ato excêntrico pode ser uma grande prova de amizade, como o que estava por trás da construção da Casa Caixa.

 "Para tudo, minha mãe tinha uma dancinha. No meio da sala inesperadamente começava a balançar os quadris sempre com os cotovelos dobrados e as mãos tensionadas, como se lutasse um tipo de boxe para senhoras. Seus olhos ficavam fechados o tempo todo. Minha mãe estava dançando numa porção de fotos nos álbuns, as que tinham as cores já meio azuladas dos anos setenta, e com alguma frequência aparecia querendo levar alguém junto para a sua dança. Ela dançou enquanto eu ensaiava All My Loving na flauta doce para uma apresentação do colégio. Dançou quando ganhamos um sofá numa promoção, que depois pareceu inadequado demais para ficar entre nós e que então acabou no apartamento do tio Vítor. Dançou e me puxou para a dança quando eu tirei o Nirvana do som e coloquei um dos seus Van Morrison, confessando que não era de todo mau um pouco de folk vez ou outra." (página 17)

 "Meu pai sentou no sofá com a manta de lhamas bordadas. Minha mãe estava de pé, dançou. E se olhavam. Enquanto se olhavam, era como se um monte de fiozinhos invisíveis os ligassem em suas situações secretas compartilhadas, e eu de fora. Mas dessa vez quase não durou. Parecia que tinham se surpreendido numa situação embaraçosa, do tipo quando nos vemos numa velha filmagem e ficamos envergonhados pelo nosso comportamento de anos atrás. Minha mãe estava morrendo de medo que logo se sentisse ridícula demais para fazer esse tipo de demonstração, então cada dança era como se fosse sua última faísca de vida, antes de ter que se balançar em segredo entre seu quarto e o banheiro, ou na frente do congelador.
 Eles estavam ficando velhos, meu pai e minha mãe, e suas ideias também. (...) Envelhecer era o tipo de coisa dura para pessoas como eles.
 Agora já era noventa e um, gente com camisa de flanela andando de cabeça baixa. Logo eu teria as minhas também. A minha cabeça pelo menos já olhava para o chão, mas na minha casa era sempre sessenta." (páginas 18 e 19)

 O segundo conto é "Falta Céu", ambientado numa cidade pequena e pacata, onde o início de construções na beira do rio se tornaria uma novidade e motivo de curiosidade para João, Lina e Titi. A história reflete bem o que é viver num lugar pequeno e como a curiosidade adolescente enxerga as situações ao redor.

 "Capitão Capivara" fecha o livro, é narrado em primeira pessoa por dois personagens: uma jovem que vai trabalhar num hotel e precisa se fantasiar para entreter as crianças, e um escritor que está hospedado lá para escrever seu próximo livro, embora não esteja muito empolgado com isso (talvez por ter sido deixado pela mulher recentemente). Temos dois personagens que definitivamente não estão em seus melhores momentos.

 "Bem. Trate de falar coisas positivas sobre esse hotel hein. Faça um belo de um contraste entre o luxo do hotel e os pensamentos bárbaros do seu assassino. E, Carlo, você ainda vai fazer o cara matar o casal com veneno?
 A princípio sim.
 Certo. Pergunte então a algum médico que tipo de veneno você pode usar.
 E a partir daí foi uma sucessão de tragédias. Primeiro desliguei bastante irritado com essa última colocação e fui até um cavalete com a programação do evento, por puro masoquismo. Na abertura, falaria um médico muito famoso. Ironicamente, era um sujeito que tinha publicado três livros pela minha editora. E eles venderam mais que os meus, porque qualquer coisa que venha com regras de funcionamento para a felicidade vende como água hoje em dia. São livros de bolso que dizem o que fazer para que as pessoas vivam mais, porque as pessoas sempre querem viver mais, mesmo que se queixem o tempo todo quando estão vivas." (página 115)

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 "Pó de parede" foi um livro que comecei a ler sem saber o que esperar (comprei porque tinha um vale numa loja e sabia que a autora foi indicada a prêmios). Logo no início da leitura, fui cativada pela escrita da Carol, por seus personagens, ambientações e histórias. Como vocês podem ver nas citações que coloquei na resenha, a escrita da autora é muito agradável, proporcionando uma leitura fluida. Os personagens que ela cria tem características que poderíamos encontrar em nós mesmos ou em pessoas que conhecemos ao longo da vida. Os lugares descritos são muito fáceis de imaginar, assim como as situações vividas pelos protagonistas (quem nunca passou por uma situação constrangedora no trabalho, ficou curioso com uma novidade por perto, teve um crush na adolescência ou se surpreendeu com um amigo e com os pais?).

 Sobre a edição: acho bonita a capa desse livro, que tem páginas amareladas, boa revisão e diagramação com bom tamanho de letras, margens e espaçamento.

 Falei mais sobre a primeira história, talvez por ela ser a maior e onde os personagens apresentam mais nuances, mas gostei muito de todos os três contos, ainda que o primeiro tenha me marcado mais. "Pó de parede" foi uma leitura rápida, cativante e muito agradável. Eu recomendo para todo mundo, especialmente para quem procura bons livros nacionais.

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 Detalhes: 128 páginas, ISBN-13: 9788561249052, Skoob. Curiosidade: alguns músicos e bandas são citadas na obra, dois mencionados em "A Caixa" seria ótimas trilhas sonoras para a leitura, "Moonlight Sonata" e Van Morrison. E sim, o livro termina daquele jeito mesmo! Clique para comprar na Amazon (e-book disponível no Kindle Unlimited):

 Por hoje é só, espero que tenham gostado do post. Me contem: já conheciam o livro ou a autora? Qual das três histórias lhe chamou mais a atenção?

Até o próximo post!

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14 comentários

  1. Oi Mari,
    Ainda não conhecia o livro. A autora realmente tem uma escrita agradável. É gostoso de acompanhar. Dos três o que mais gostei foi A Caixa. Me senti parte desse grupo, os anos que se alternam também me chamam a atenção, pois amo esse período.
    Bjim!
    Tammy

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  2. Oie, eu achei bastante interessante a proposta do livro, porque não é uma história pronta, ela vai se amarrando aos pouquinhos, diante do leitor e isso sem duvida alguma é bastante fascinante, eu não conhecia a obra e graças à sua resenha tô completamente encantada.

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  3. Ainda não conhecia o livro, mas gostei da premissa da primeira história, amo o movimento hippie e fiquei curiosa para descobrir mais dessa construção excêntrica. Saber que a escrita da autora te cativou é animador, então é recomendação nacional anotada.

    Abraços.

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  4. Oi tudo bem?
    Eu não conhecia a obra, mas aechei bem interessante, ainda mais por saber que possui uma ligação entre as tramas, mesmo que pequena.
    bjos
    Pah
    Lendo e Escrevendo

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  5. Olá!
    Nunca tinha ouvido falar sobre o livro e nem sobre a autora, mas achei a proposta de unir histórias por meio da presença de construções algo bem inusitado. Entre os contos mencionados, os que mais me interessaram foram "A Caixa" e "Falta Céu". Fiquei bem curiosa em saber como é a casa de Alice e o motivo dela chamar tanto a atenção entre os vizinhos. Ótimo post! Beijos!

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  6. Olá.

    Não conhecia o livro, mas achei bem interessante. Gostei de saber, principalmente, que são histórias independentes, mas que se conectam. Acho incrível quando o autor consegue fazer essa conexão.

    Beijos,
    Blog PS Amo Leitura

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  7. Olá! Ainda não conhecia esse livro e fiquei curiosa.
    Vou anotar a indicação. Tendo oportunidade, estarei lendo também.
    Sucesso e boas leituras, bjo

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  8. Olá, Mari.

    Adoro contos e esse livro parece ser uma leitura bem rápida mesmo. O que mais me chamou a atenção foi o último, sinto que de alguma forma o hóspede encontrará inspirações na funcionária. Mas também fiquei curiosa a respeito do mistério envolvendo a casa caixa.

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  9. Não conhecia esse livro e confesso que lendo seu texto não conseguir me identificar com o enredo nem ficar curiosa, mas foi interessante saber um pouco sobre esse titulo.
    Parabéns pela leitura querida.

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  10. Oi Marijleite, sua linda tudo bem?
    Em um primeiro contato, confesso que as histórias não chamaram muito minha atenção, não tenho o costume de ler livros com contos. Mas acredito que em uma fila de banco, ou espera de um médico, o livro nos entreteria pela escrita fácil da autora. Gostei muito da sua resenha!!!
    beijinhos.
    cila.

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    1. Fico contente que tenha gostado, a escrita da autora é muito cativante.

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  11. Oi Maria,
    Gostei da premissa do livro, mas fiquei sem saber onde se encaixa a capa hahaha, apesar disso gostei da dia e vou deixar anotada.

    Beijokas

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    1. Haha, acho que mostra o interior de uma casa, a pessoa tá de meias, então deve ser um lugar onde ela se sente confortável, tem a vegetação do lado de fora...

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  12. Oi!
    Normalmente não é o tipo de livro pelo qual me interesso mas fiquei curiosa com o primeiro conto, que parece trazer visões interessantes sobre a protagonista e a sua casa. Os demais admito que não me atraíram mas não descartaria a possibilidade da leitura.
    Beijos!

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