Resenha: livro "O Sol na Cabeça", Geovani Martins

 Olá pessoal, como vocês estão? Na resenha de hoje venho comentar sobre minha experiência de leitura com "O Sol na Cabeça", livro escrito pelo Geovani Martins e publicado em 2018 pela Companhia das Letras.

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 A obra é composta por 13 contos, sobre os quais vou comentar resumidamente.

 Em Rolézim, o narrador fala, com o uso de muitas gírias, sobre um dia quente em que ele e os amigos vão para a praia, usam drogas, aproveitam o calor. Na volta para casa, são parados pela polícia, e o medo de morrer como o irmão ou de decepcionar a mãe, movem o personagem principal. O protagonista de Espiral convive a vida toda com pessoas preconceituosas tendo medo dele, por ser morador da favela, o que lhe machuca e lhe faz passar a alimentar esse medo até níveis perigosos.

 Em Roleta-russa, um garoto curioso pega a arma do pai, um segurança, sem que ele saiba e contrariando suas ordens. O garoto vai para a rua exibir a arma para os amigos, dividido entre o exibicionismo e a culpa por saber que decepcionaria o pai se ele descobrisse que estava traindo sua confiança. O caso da borboleta também é protagonizado por um garoto, o Breno, de nove anos, que certa noite, vai à cozinha (uma cozinha que tem janela, assim como a minha) procurar algo para comer e se depara com uma borboleta caída no óleo usado para frituras, é um dos contos mais poéticos do livro.

 A história do Periquito e do Macaco traz novamente o uso de gírias, ao falar sobre um tenente da UPP, cujo "bagulho não era pegar traficante", mas sim viciado. Esse tenente foi emboscado e morto pelos traficantes. Primeiro dia nos apresenta André, um garoto de onze anos, empolgado por ir para uma escola nova, onde teria outros adolescentes como ele, uma escola onde toda semana tinha "porradeiro" com a turma de outro colégio. Mas no primeiro dia de aula, também enfrentaria um trote, ligado à lenda da Loura do Banheiro.

 O rabisco fala de Fernando, um pichador que foi confundido com um ladrão e correu para o terraço do prédio. Embaixo, policiais e a população se aglomerando, aumentando o desespero que Fernando, que foi pai recentemente e tinha decidido deixar a pichação por ser arriscado.
 "Chegam sem entender o que está acontecendo, se informam do motivo da aglomeração, e então são envolvidas pela rua e a sua incrível capacidade de transformar pessoas comuns, que amam e choram, que sentem fome e saudade, em algo completamente diferente, numa unidade capaz de ir além dos limites de cada um dos indivíduos reunidos, que não se incomoda em ver o sangue escorrendo pela roupa do objeto atingido, se isso satisfizer a sua noção de justiça no momento exato do choque. Era mais uma vez a sede de fazer justiça contra o desconhecido, como sempre foi, desde o início dos tempos." (página 54)
 "Fernando sabia que esperando ali não corria o risco de levar um tiro à queima-roupa. Não com tanta gente acompanhando a história, dentro de um prédio residencial. Com certeza levaria um couro bem dado. Chutes e socos descontando a espera e sabe-se lá quantas outras frustrações.
 O foda é que porrada também mata. Impossível esquecer o tanto de amigo que se foi depois de apanhar na pista, com traumatismo craniano, hemorragia interna. E, mesmo que não fosse sua hora, que sobrevivesse à surra, ia precisar explicar em casa aqueles hematomas todos, e saberiam que voltou a pichar, que cedeu ao vício, e o jugariam fraco e também hipócrita, por viver reclamando que seu pai o havia trocado pelo álcool e agora trocava seu filho por tinta." (página 57)
 A viagem se passa próximo a virada de ano, onde o personagem principal vai com a garota que ele está começando a namorar e um amigo para Arraial do Cabo, aproveitar o feriado na casa de um primo argentino desse amigo. Drogados, vão passear e passarão por uma situação inusitada por uma confusão.

 Em Estação Padre Miguel, um grupo de amigos se reúne na linha do trem para fumar maconha. Estava proibido pelos traficantes o uso de crack na região, mas até os amigos explicarem que "focinho de porco não é tomada" na mira de uma arma...
 "A noite protegia os que tinham medo de explanar o vício. Quando escurecia, na linha do trem ninguém tinha mais nome nem rosto para quem passasse de fora, era tudo um único monte de viciado." (página 72)
 "É engraçado, porque no auge do crack pelas ruas de Bangu, assim como todo mundo, eu ria de piada de cracudo, fazia piada de cracudo, mas a verdade é que, nas vezes que me demorava demais na cracolândia, começava a imaginar as histórias daquelas pessoas antes da pedra e sentia vontade de chorar." (página 72)
 "Sorri da precisão que tive prevendo aquelas palavras. Essas conversas repetidas às vezes me enchiam o saco, por fazerem parecer que estávamos sempre repetindo os dias. Mas algumas vezes eu me envolvia, e conseguia sentir todo o prazer contido nas conversas decoradas.
 - Vocês só falam de droga, nunca vi.
 - Isso é porque o mundo tá drogado, irmão. Até parece que tu não sabe. Já te falei, vou falar de novo: uma semana sem drogas e o Rio de Janeiro para. Não tem médico, não tem motorista de ônibus, não tem advogado, não tem polícia, não tem gari, não tem nada. Vai ficar todo mundo surtando de abstinência. Cocaína, Rivotril, LSD, balinha, crack, maconha, Novalgina, não importa, mano. A droga é o combustível da cidade.
 O Alan adorava falar isso, a gente adorava ouvir.
 - A droga e o medo - concluí. (páginas 74 e 75)
 "Eu nunca entendi esse movimento. Quero dizer, sempre me senti profundamente incomodado com esses silêncios inexplicáveis. É sempre como se alguma coisa estivesse rompendo. De um momento pro outro tudo se desfaz, tudo desaba, e ficamos sozinhos frente ao abismo que é a outra pessoa. Daí vem uma vontade de falar não sei o quê, só pra tentar reunir uns pedaços da gente, meia dúzia de restos espalhados pelo mistério que é a convivência." (página 75 e 76)
 O cego é sobre Seu Matias, um homem cego que contava sua história em ônibus.
"Quando pequeno, Matias não suportava a companhia de outras crianças, tagarelando sobre tudo numa velocidade absurda, atropelando os assuntos, embolando as vozes, sobrepondo imagens; as palavras voavam sempre pra muito longe. Por esse motivo, preferia conversar com os velhos, esses sempre tinham paciência pra tentar explicar detalhadamente a forma de cada coisa, de um jeito tão cuidadoso como só mesmo a solidão dos velhos permite. O céu, os rios, os ratos, a chuva, as pipas no alto, o arco-íris, tudo isso que é dito sem pensar no passar dos dias." (página 86)
 O mistério da vila foi meu conto favorito. Dona Iara, uma senhora bem idosa, é conhecida como a macumbeira, alvo da curiosidade das crianças e dos comentários ofensivos de quem tem religiões diferentes, mas que nas horas de desespero, recorrem às rezas dela. Até que dona Iara fica doente, e as crianças vão perceber o quanto ela é importante para eles, independente da religião. Um conto que mostra a hipocrisia de alguns, mas também mostra que Deus é um só.
"Sem comentar com ninguém, Thaís passou toda a semana pedindo a Jeová pela vida de dona Iara. Colocou a velha em todas as suas orações diárias; até na congregação, na reunião de domingo, pediu por ela, mesmo sem saber se era pecado orar pela macumbeira dentro da casa de Deus.
Ruan ficou muito abatido, enfiado em casa, brincando sozinho, sem sorriso nem barulho. A avó, percebendo tristeza no garoto, perguntou se havia brigado com os amigos.
- Eu não quero que a dona Iara morra, vó. Você lembra quando ela veio aqui e acabou com os carrapatos? Não fosse por isso, o Máilon tava morto hoje, sem sangue, eu lembro.
A velha, comovida, aconselhou:
- Pois então peça a Deus por ela, meu filho. Ou melhor, pede pra um santo. Se você tiver fé, ele te ajuda com Deus. E, com santo pedindo, Nosso Senhor sempre atende." (página 95)
 Sextou é protagonizado por um rapaz que vai comprar droga com o pagamento da primeira semana de trabalho, mas dá de cara com os policiais. Travessia traz Beto, que trabalhava numa boca, matou um cara e agora tinha que dar um jeito de sumir com o corpo.

 Esse é um resumo muito superficial dos contos. "O Sol na Cabeça" teve bastante divulgação no lançamento. O Geovani é poucos meses mais velho do que eu, e como seus contos, segundo a orelha, têm inspiração autobiográfica, eu estava com expectativas elevadas para conferir esse livro tão elogiado no lançamento e curiosa para ver o que tinha para dizer alguém que viveu na mesma época que eu, mas em lugares diferentes (o autor nasceu em Bangu e morou no Vidigal).

O-Sol-na-Cabeça, Geovani-Martins
O-Sol-na-Cabeça, Geovani-Martins

 É inegável a capacidade do autor de escrever contos que quase dão um nó na nossa cabeça pelo uso constante de gírias, que talvez nem todos entendam, e no conto seguinte, já utilizar uma linguagem mais sensível e poética. Muitas das situações vividas pelos personagens, muitos dos seus inquietamentos, das suas dúvidas sobre a vida, são situações e pensamentos com os quais os leitores podem se identificar. Alguns contos, como "Roleta-russa" e "O rabisco", terminam justo no momento em que estamos mais tensos para saber o que acontecerá em seguida... Essa diversidade na escrita, essa identificação e as emoções passadas ao leitor são  pontos positivos da obra, mas que infelizmente não fizeram "O Sol na Cabeça" superar as minhas expectativas.

 Em certo momento, eu já estava cansada de ver as histórias sendo protagonizadas por usuários de drogas ou traficantes, mais da metade dos contos é sobre eles, ficou repetitivo, maçante. Me parece absurdo, por exemplo, ir para a casa de uma pessoa que você nem conhece, com uma garota com quem se está começando um relacionamento, e levar drogas, como acontece em "A viagem". No nosso país, quem usa maconha, está ciente de que pode ser parado pela polícia e ter problemas, ou seja, está buscando encrenca com as próprias mãos (alguns contos mostram como o risco não vale a pena). Eu e os meus amigos nunca precisamos estar sob o efeito de drogas para nos divertirmos juntos nem para termos reflexões sobre a vida ou nos aproximarmos de outras pessoas. Por que alguém precisa estar fora de si para viver? E não é só em cidade grande que tem gente que ganha pouco e trabalha onde não é valorizado, essa é uma realidade de muitos brasileiros, que nem por isso descontam suas frustrações nas drogas.

 Apesar de discordar das atitudes de alguns personagens e de ter achado cansativo a repetição de alguns temas, pela versatilidade da escrita do autor e por saber das diferentes realidades do nosso país, acredito que "O Sol na Cabeça" possa proporcionar experiências de leitura, no mínimo, interessantes. A edição traz uma capa com cores vibrantes, páginas amareladas, boa revisão e diagramação. E vocês, já leram ou querem ler o livro?

Detalhes: 122 páginas, ISBN-13: 9788535930528, Skoob. Clique para comprar na Amazon:

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Até o próximo post!

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12 comentários

  1. Tudo bem? Ainda não li esse livro, mas ganhei de presente.
    Não sabia ainda se iria ou não ler.. Através da sinopse não me senti muito atraída, mas lendo sua resenha curti a premissa e suas impressões e resumo da história. Fiquei bem curiosa para sentir a escrita e o desenrolar sobre Fernando, o pichador. Assim como também me interessei muito por outras partes..
    Vou adicionar a meta de leitura.

    Além das Páginas.

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  2. Olá!
    Tenho visto bastante sobre esse livro e gostei da forma como trouxe um pouquinho sobre os contos. No entanto, os temas abordados e talvez por esse excesso de repetições ao longo das histórias que você cita na resenha, seria um problema para me deixar envolvida na trama.
    Acho legal esse choque de realidade entre os diferentes locais do RJ mas não sei se me encaixaria nessa leitura no momento.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  3. Oi, Mari.
    Ganhei esse livro em um evento da Companhia. Na oportunidade o autor estava presente falando sobre seu trabalho e logo de cara percebi que não era o tipo de livro para mim. Acabei sorteando meu exemplar, para que alguém mais interessado pudesse fazer essa leitura!
    Depois de ler a sua resenha, não me arrependo de não ter lido o livro!
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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  4. Acho importante falar sobre esses temas mas quando colocados desse modo, realmente fica algo bastante maçante. Essa não é o tipo de obra que tenho interesse em ler por agora, mas acho bacana que ao menos o autor lançou alguns questionamentos sobre minorias e drogas em seu enredo.

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  5. Oi Marijleite sua linda, tudo bem?
    Acho que poucos livros hoje em dia falam sobre drogas, então, o autor poderia ter usado de sua experiência para debater o assunto, dizer o quanto é ruim e as consequências, mas que pena que não foi o que aconteceu. Acredito que não seja o tipo de leitura que me agrada.
    beijinhos.
    cila.

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  6. Oi, Maria!
    Ainda não conhecia esse livro! Eu sou meio complicada para ler contos, eu acabo lendo um, depois pegando o livro de novo só uns meses depois para ler outro conto. rsrs
    A ideia geral é bem bacana. Imagino que deve cansar mesmo as semelhanças entre os protagonistas de cada conto, acho que por isso é interessante essa pausa entre os contos, mas pelo que pude perceber, os lados positivos se sobressaem aos negativos.
    bjs
    Lucy - Por essas páginas

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  7. Olá, tudo bem?
    Eu sempre ouvi elogios para esse livro e tinha muita curiosidade com ele, agora que li a sua resenha eu até continuo curiosa, mas não tanto quanto antes. Acho que lendo com as expectativas baixas eu talvez possa gostar, e realmente espero. Os pontos negativos que você mencionou me desanimaram a ler, mas ainda quero ter essa experiência.

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  8. Oi, tudo bem?
    Eu li, gostei, a crítica social e compreender um pouco o que se passa do outro lado, mas de certo modo me pareceu uma leitura estereotipada, exagerada, um tanto fútil, sem razão (o motivo do uso exagerado de drogas e de certa forma a apologia). O autor tem talento? Sim. Mas o editor falhou em deixar tanta coisa repetida, não é um livro pra ler de uma vez só, ou dá gastura. E o seu conteúdo não é bom para ser alimentado como livro de cabeceira, enfim, foi uma leitura que soou confusa e analisei mais criticamente do que me deixei levar pelo conteúdo! Beijos

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  9. Oi Marijleite,
    Não gostei da mensagem sobre o uso das drogas que o autor acabou passando com seu livro. Drogas matam, isso é uma realidade, destroem a vida de pessoas. Confesso que por esse motivo não leria o livro. Gostei da sua resenha sincera.
    bjs.
    Pri.
    https://nastuaspaginas.blogspot.com/

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  10. Oi Maria, tudo bem?
    Eu tenho vontade de ler esse livro, mas sua resenha deu uma desanimada, pois não esperava que o livro tivesse contos com tantos temas repetidos. Além disso também não achei muito legal alguns personagens desse livro, mas, como já tenho o livro, vou ler. Quem sabe ele não funciona diferente comigo?
    Beijos

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  11. Oi, tudo bem?
    Eu vi que esse livro foi muito divulgado na época do lançamento, mas confesso que não fiquei muito curiosa, por não ser muito de ler contos. Lendo a sua resenha eu desanimei mais ainda, pois nenhum dos contos despertou minha curiosidade e o fato dos temas se tornarem repetitivos tira qualquer vontade ler.
    Adorei sua resenha, mas acredito que é uma leitura que não funcionaria para mim.
    Beijos!

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  12. Oi Maria José, como está?
    Eu tenho esse livro nos meus e-books graças a uma amiga que me presenteou ele pelo Dia do Amigo, mas confesso que ainda estou bem dividida sobre ler e fiquei ainda mais com a tua resenha.
    Não deixo, no entanto, de compreender as possíveis (ênfase nisso) razões do autor ter escrito todo o livro com esse tema recorrente, já que, em se tratando de drogas e os motivos para usá-las, existe uma infinidade deles e nem todos os usuários se dão conta do mal que isso faz até ser tarde demais. O mesmo eu posso dizer do álcool e do cigarro, porque ambos vitimaram um tio meu falecido de um câncer no esôfago.
    Abraços e beijos da Lady Trotsky...
    http://www.galaxiadeideias.com/
    http://osvampirosportenhos.blogspot.com

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