Resenha: livro "O alforje", Bahiyyih Nakhjavani

 Olá pessoal, tudo bem? Na resenha de hoje venho comentar sobre minha experiência de leitura com o livro "O alforje", escrito pela iraniana Bahiyyih Nakhjavani e publicado pela editora Dublinense para a TAG - Experiências Literárias em fevereiro de 2018. Estou sorteando um kit com o exemplar do livro e brindes no canal (clique para participar). Vocês podem apertar o play e conferir a resenha em vídeo, ou continuar lendo:



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 "Havia um Ladrão que ganhava a vida roubando os peregrinos na estrada entre Meca e Medina. Era um Beduíno que havia nascido nas dunas e nunca teve pai. Os sacerdotes também eram estranhos para ele, que nunca deu importância ao profeta ou às suas leis. Como foi criado por várias mães, as quais tinham morrido, todas elas, antes que ele aprendesse a arte de bater carteiras, o Ladrão recebeu pouco amor e nenhuma instrução. Mas sempre fora livre." (página 17)

 Assim começa a história, narrada em terceira pessoa, ambientada no século XIX, no deserto do Oriente Médio. Uma caravana vai cruzar esse deserto, e por provavelmente estar carregando muitos objetos valiosos, virará alvo de ladrões da região. O livro é dividido em nove partes, e em cada parte iremos acompanhar e conhecer um personagem dessa história.

 O primeiro é um jovem Ladrão, um Beduíno que nasceu nas areias e conhecia o deserto como a palma da mão; muitas vezes serviu como guia, mas decidiu abandonar o bando de criminosos do qual teve que fazer parte há algum tempo, para tentar roubar essa caravana e enfim poder ser mais rico e livre. Mas o Líder do bando, um dos personagens mais cruéis do livro, também estava de olho na caravana.

 Temos uma jovem Noiva, zoroastrista (o Zoroastrismo era a religião predominante no Irã antes da invasão muçulmana) que tem visões e está indo encontrar o futuro marido, acompanhada de sua Escrava e de um rico enxoval. Um Cambista indiano participou das negociações do casamento, aliás, ele participava de tudo o que pudesse lhe dar alguma vantagem.

 Há um Peregrino estrangeiro e idoso, as pessoas não entendem muito bem o que ele fala, mas ele está de olho num Dervixe, um homem que desperta sua desconfiança por viver sumindo e aparecendo da caravana. O Sacerdote é um rapaz fazendo a tradicional peregrinação às cidades sagradas dos muçulmanos, Meca e Medina.

 E, por fim, temos um Cadáver, o corpo de um homem que está sendo levado nessa caravana pra ser enterrado em outra cidade, juntamente com objetos de valor. E o mal cheiro desse corpo em decomposição, junto com as extravagâncias da noiva, a implicância do Sacerdote com as pessoas de outra religião e as interferências do Cambista em busca de alguma vantagem, vão ser motivo de muita confusão nessa viagem.

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 É super interessante a forma como as histórias desses personagens vão se interligando, e sempre através de um misterioso alforje (uma espécie de bolsa). O que tem dentro desse alforje? Será que é o tesouro mais precioso da caravana? Será que algum desses personagens é o dono dele? O fato é que, a cada parte, ampliamos nossa visão sobre a trama e seus personagens: aquele que nos parecia insignificante em um capítulo, torna-se o protagonista no outro.

 Esse é um daqueles livros que a gente resolve ler só mais um capítulo, aí termina aquele capítulo e quer ler a próxima parte para saber mais sobre o personagem seguinte. E assim a gente devora as 300 páginas rapidamente, eu li a obra em dois dias. Vi em algum lugar que, durante a leitura, o leitor consegue até sentir a areia do deserto, e eu concordo. O brinde enviado pela TAG junto com o livro foi uma espécie de essência, e realmente é possível lembrar desse cheiro em algumas partes. É muito fácil visualizar o deserto e os outros locais onde a trama se passa, sentir as fragrâncias e o calor durante a leitura.

 "Só que a noiva era uma criatura histriônica. Tudo que ia, poesia ou canção, era compartilhado com a Escrava; tudo que escrevia, em seguida lia em voz alta para a Escrava. Em segredo, a africana desconfiava daqueles sinais mágicos, tinha medo do papel que podia transportar vozes humanas." (página 180, me cantei por essa descrição do poder da escrita)

 A escrita da autora me pareceu mais poética, fazendo alusões à coisas abstratas em alguns momentos, e mais fluida em outros. Eu gostei bastante da parte da Escrava, sobre como ela, mesmo depois de ser liberta, apegou-se e pegou para si a missão de cuidar da noiva. Mas a minha parte e o meu personagem favorito foi o Cambista indiano: durante a vida, ele teve que se reinventar inúmeras vezes, se adequar às situações pra sobreviver.

 "Durante aquele primeiro inverno de sua vida, ele se viu perdido e sem rumo, sem um tostão e morrendo de frio em Constantinopla. Aquilo o convenceu, mesmo depois, que ele preferia morrer de calor do que de frio e que não importava quais estações teria de viver outras vezes na vida, contanto que não fosse o inverno". (página 128)

 É interessante como a gente tem personagens tão diferentes na obra, essa diversidade me parece fruto da religião da autora, a Fé Bahá'í, que prega essa união entre os povos. Alguns personagens são muito jovens como a Noiva, outros são idosos como o Peregrino. Alguns não tem uma religião definida, e outros são fanáticos como o Sacerdote. Chega a ser engraçado esse fanatismo dele, que pensa que se fizer suas obrigações religiosas, como o sacrifício de ir à cidade sagrada e jejuar, Deus imediatamente lhe dará algo em troca, independente das outras coisas erradas que ele fizer, como sua falta de amor ao próximo.

 "Entreviu de relance a mesma escrava negra, as mesmas criadas zoroastristas. Que injustiça era aquela? Será que aquelas infiéis e idólatras - aquelas mulheres! - ficariam atravancando seus passos até Medina? Era inimaginável! Por que estava sendo acossado por elas, quando tinha feito o que devia fazer, quando ele havia superado a si mesmo no que dizia respeito à obediência, quando certamente ele merecia mais de Deus? Onde estavam Suas bênçãos? E o que dizer de todo o dinheiro que ele havia gastado para adquirir aquelas bênçãos? O Sacerdote tinha um forte sentimento de dívida em aberto." (página 256)

 O trecho abaixo sintetiza bem a história, que também vejo como a busca de cada personagem por um sentindo para sua vida, uma busca por respostas que alguns deles nem sabiam ao certo como formular em perguntas:

 "Portanto, essa é a nossa história, ponderou o Cadáver, recostado em frágil dissolução na parede norte da ruína. Uma história de podridão delicada e de sutil decadência, que dia a dia desenrola seu carretel. Uma história de confiança, uma história de mudança, uma história de desapego e vínculo, como o perfume no deserto, que perdura na memória de homens saturados de si mesmos." (página 326)

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Livro, revista e marcador
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Contracapa e sinopse do livro, ao fundo, foto da autora
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A qualidade da foto não ficou boa, mas dá para ter uma ideia da diagramação
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Olhem como a roupa do personagem parece mesmo ser feita de paetês

 A edição da TAG é caprichada, com capa dura, páginas amareladas, boa revisão e diagramação com letras, margens e espaçamento de bom tamanho. A capa (difícil de fotografar) tem cores variando entre o tom laranja e o marrom, as imagens da capa e do interior do livro foram obtidas através de ilustrações bordadas e depois fotografadas e editadas. Exite um glossário no final do livro para ajudar a entender alguns termos, há algumas palavras na obra que não são tão conhecidas pela maioria dos leitores, mas uma pesquisa rápida no Google ou no dicionário resolvem, e isso é bom para enriquecer nosso vocabulário. Onde encontrar esse livro? Até a Dublinense e a TAG publicarem em fevereiro, ele era inédito no Brasil, não encontrado em outra edição. Pode acontecer de futuramente alguma editora lançar outra edição, mas não é certeza. Assinantes da TAG podem comprá-lo na loja exclusiva, e algum assinante pode querer vender ou colocar seu exemplar para troca. Por enquanto, se ficou interessado na obra, sugiro que participe do sorteio no canal, as inscrições vão até dia 20/04/2018.

 "O vento trazia o perdão" (página 159)

 Detalhes: 336 páginas, ISBN-13: 9788583181002, Skoob.

 E por hoje é só, espero que tenham gostado do post e do vídeo. Fica a minha recomendação de leitura para quem procura um livro que traga diversidade, e que nos faça viajar com a história. Esse foi o primeiro livro que li da TAG, apesar de já assinar há meses, e foi uma experiência bem bacana essa de ter uma edição tão caprichada, ainda mais por ser acompanhada pela revista que expande muito o nosso entendimento da leitura.

* Clique aqui e participe dos sorteios de livros que estão rolando no blog.

Até o próximo post!

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27 comentários

  1. Oi Mari!

    Tudo bem? Antes de mais nada: que edição linda! Sério, a TAG arrasou com esse livro. Nossa!

    Segundo, eu acho bem bacana essa proposta, mas por outro lado morro de medo de aderir ao box e receber livro que não me interessa/alguma coisa que já tenho na estante.

    Bom, Alforje não é um livro que me chama atenção, a trama foge muito de tudo que estou acostumada a ler e do que, em suma maioria, eu gosto e duvido muito que eu fosse gostar da leitura. A escrita poética é legal e, às vezes eu adoro, outras vezes já me irritou a ponto de desistir do livro. Acho que vai muito da minha "vibe".

    Beijinhos
    www.paraisoliterario.com

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  2. Gente eeeeeee eeeeeee que história !!!! EU AMO esse tipo de história com uma aventura e tanto ooooooooo mais como toda boa história essa é cativante para o publico

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  3. Que lindeza Mari! <3

    Estou ainda mais ansiosa para o sorteio!!!

    Beijinhos

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  4. Olá
    Sendo bem sincera, quando vi esse livro sendo recebido pelos assinantes pensei, credo deve ser horrível., mas lendo sua resenha e vendo a quantidade de personagens e de histórias interessantes fiquei com vontade de ler. Vou anotar essa dica com certeza.
    Beijuh

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  5. Tudo bem? Já tinha visto essa edição e eu fiquei encantada e curiosa.

    Penso em ler esse livro, assim que der.

    Beijos..


    www.alempaginas.com

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    1. Mari se der, depois me tira uma divida sobre a edição?

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    2. Desculpe a demora pra responder, qual a dúvida?

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  6. O trecho que você leu no vídeo, nota-se que é um livor bem intenso. Um ponto interessante e acho que o que mais me despertou curiosidade foi a diferença entre os personagens, isso dá a obra um ar mais original! E claro deixa a leitura ótima.
    Uma pena que tenho um pouco de medo de investir nos livros da Tag.

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  7. Já tinha visto essa edição da Tag e eu fiquei completamente apaixonada, e quando li a sinopse fiquei muito interessada no livro, e com a sua resenha, fiquei doida mesmo por esse livro.

    www.rotinaagridoce.com

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  8. Você não faz ideia do quanto eu quero ler esse livro. Geralmente não é o tipo de leitura que eu escolho, mas a maneira que a autora misturou as histórias me deixou extremamente curiosa. Essa edição da tag tá maravilhosa <3

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  9. Que aventura esse livro, hein! Antes de falar da resenha em sim, eu amei logo de cara por conta da capa e todo o trabalho gráfico, já me arrebatou rs. Gostei da forma que toda história é traçada, em partes, acho isso bem dinâmico nos livros. Já vou marcar na minha lista de desejados.

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  10. Oi Mari, tudo bem? Nossa, que edição lindíssima! Eu não conhecia a obra, mas gostei bastante da proposta e principalmente dos personagens, tem até um cadáver! Não é um livro que leria no momento, mas gastei de conhecer um pouco mais da obra!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  11. Parece ser aquele tipo de livro que você vai carregar por um bom tempo, gostei bastante da sinopse, e me interessei demais. Essa coisa de sentir a areia achei incrível também, reforça que o livro deve ser bem elaborado, vai pra lista <3. Bjs !!

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  12. Oiiiii,


    Que livro lindo! E que estória interessante! No início eu achei que eram enredos separados, não ia imaginar que as estórias iam se cruzar e fiquei muito curiosa para saber como isto vai ocorrer! O quê que tem no alforge? Kkkk fiquei muito curiosa para saber.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com

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  13. Olá!

    Que edição linda!!! Não conhecia o livro, mas depois de ler sua resenha, fiquei com muita vontade de conhecer um pouco mais esses personagens, ainda mais sabendo que os personagens vão se interligando durante a trama. Espero que futuramente tenha outra edição aqui no Brasil, pois as da TAG são exclusivas.
    Beijos.

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  14. Ola
    Que edição linda bem caprichada achei bem linda.

    Ainda não conhecia a obra e fiquei bem curiosa com a história irei pesquisar maia sobre ela . mais irei esperar pq sinto que da nada não e o momento pra ler esse livro
    Quando chegar o momento irei da uma chance.

    Bjs

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  15. Oi Mari! Que bacana essa história! amo quando o autor intercala vários personagens, contando sobre cada um deles separadamente, porém com pequenos detalhes que os unem, neste caso, o alforje. Gostei da ambientação no deserto, pois não temos muitos livros com essa paisagem como fundo da trama. Gostei um pouco de cada personagem, e quero conhecer cada um deles. A edição da TAG é linda, sem falar sobre as obras que quase sempre são diferentes das quais a gente sempre lê! Obrigada pela resenha!


    Bjoxx – www.stalker-literaria.com

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  16. Oi, Mari!
    Eu achava que alforje era uma comida hahahahhaha
    Essa edição está lindíssima mesmo. De início, achei que esse livro não seria uma boa leitura pra mim, mas sua resenha vou me convencendo a dar uma chance.
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. Haha, acho que a comida é alfajor, rsrs.

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  17. Olá!
    Essa capa é linda e a diagramação também. Gosto desse estilo de escrita misturando elementos abstratos na narrativa.
    Não sei se pegaria pra leitura no momento, mas vou anotar a dica pra conhecer em breve.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  18. Não conhecia o livro, e achei interessante interligar personagens tão diferentes.
    Dica anotada.
    Bjs Rose

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  19. Oiii tudo bem??

    Conhecia o livro e a edição, sou assinante da TAG Inéditos, até tinha compro um ou outro as vezes, mas esse não estava na lista até ler sua resenha.
    Achei a história bem interessante, e quem sabe eu não compre futuramente.
    Adorei conhecer e sua resenha está otima.
    Bjus Rafa

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  20. Gente, e o nome dessa autora? Eu li umas cinco vezes e ainda não adivinhei como se pronuncia! Hahahaha
    Eu curto muito histórias que se interligam, mas essa característica mais poética não me agrada, acho esse tipo de escrita um pouco enfadonha, sabe?
    Mas confesso que gostaria de ter essa edição somente por conta da sua beleza! Fiquei apaixonada! Hahahaha

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  21. Olá! Tudo bom?

    Achei a edição linda, super capricharam na diagramação! Ainda não tinha ouvido falar da obra ou da autora mas achei interessante, porém pelo o que eu li acima ela não faz muito o estilo de livro que me prenda. Mas gostei do fato de cada parte podemos conhecer um personagem que possuem cada qual sua característica. Enfim, adorei seu resenha, espero que sua experiência com a TAG continue sendo satisfatória ♥

    Um beijo
    http://romanceerotic.blogspot.com.br/

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  22. Oi!
    Eu sempre vejo os livros da Tag e fico babando aqui de tão lindos. Sou doida pra assinar, quero tentar fazer isso nos próximos meses :)
    Gostei da resenha, não conhecia o livro, fiquei curiosa.

    Bjs!

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  23. Olá Mari!!!
    Todo mundo fala maravilhas sobre os livros da TAG, pois são feitos com um cuidado maravilhoso.
    Gostei de saber que a história é bem escrita e que até dar para sentir o ambiente em que você está quando está lendo.
    Adorei a resenha!!!

    lereliterario.blogspot
    Com

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  24. Oie!
    Quando vi esse livro na tag fiquei meio blergh! Pensei que seria o tipo de livro que eu não leria, mas a sua resenha me surpreendeu muito e que edição mais linda é essa?
    Estou ainda um pouco ressabiada com a obra, mas anotei a sua dica!

    beijos,
    Mayara

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