Resenha: livro "Pequenos Escritos, Sinistras Histórias"

 Olá pessoal, tudo bem? O post de hoje é uma resenha que eu vinha adiando, pois minha experiência de leitura com "Pequenos Escritos, Sinistras Histórias" não foi das mais fáceis. Publicado em 2015, o livro é uma antologia da Editora Illuminare que reúne os melhores contos e minicontos recebidos pela editora em um concurso.

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 São cerca de 40 textos, de autores brasileiros e portugueses, sobre diversos temas. Entre os contos que gostei, temos: um jogador de futebol vivendo a pressão de estar em uma partida contra seu antigo time, uma tatuagem que ganha vida, pai e filho que precisam lidar com a perda da mãe, uma busca por um esconderijo seguro que nos deixa sem fôlego mas que no final é só um jogo de Paintball, uma criança que tem medo de ir no porão (medo que todos nós já podemos ter tido na infância), dois garotos tentando descobrir a origem do estranho cheiro de flores que vinha do cemitério sempre na véspera do feriado de Finados, um personagem que faz de tudo para salvar uma garotinha mas talvez já seja tarde demais...



 "- Tantos passam a vida seguindo a luz, para não cair na escuridão... Bem, eis a minha pergunta. 'Porque não mergulhar neste umbral de trevas e se divertir?'" (página 87, "O Blecaute", Serena Tsukino, um dos maiores textos do livro e que me surpreendeu bastante)

 "Era uma vez" do Tito Silveira traz uma inversão do que vemos nos contos de fada: talvez a princesa esteja presa na torre e vigiada pelo dragão para a própria segurança do reino... Ficou em 2° lugar na categoria MiniConto e mostrou que em poucas palavras é possível impactar o leitor.

 "Um dia de cão" do Alexandre Simas é o que o título diz: um cachorrinho que se sente mal tratado pelos donos. É interessante ver como o animal enxerga uma realidade que infelizmente é a de muitos iguais a ele e que os humanos podem não estar vendo da mesma forma, achando que aquele tratamento é o suficiente para o animal.

 "Fui levado muito pequeno, não lembro muita coisa além desse dia, nem sei direito se tive ou tenho irmãos. Fui levado sem motivo algum e jogado nesse buraco, onde sempre que podem me encurralam e me prendem em um lugar pequeno. Por mais que eu grite, me deixam trancafiado e vão embora. Nem direito de chorar eu tenho, se escutam, voltam e me espancam. Aqui é pequeno demais, fede às minhas próprias fezes e urina, fico preso por horas e não tenho aonde fazer minhas necessidades a não ser no próprio chão. Mas hoje isso acaba, acham que não sou esperto o suficiente para fugir daqui, burro são eles que esqueceram a porta aberta. Quanto descuido! Sempre me torturam quando a noite cai, uma tortura sádica, uma gama de cheiros incríveis é liberado aguçando ainda mais a fome que sinto, dá pra ouvi-los comendo e quando minha fome vem eu tenho, quando tenho, uma comida horrível, salgada, difícil de mastigar e água." (página 18)

 Há alguns contos bem criativos, como os citados acima, e outros não tão marcantes. O meu problema com a antologia foram os contos mais pesados, que falavam sobre vingança, filicídio (um pai mata a própria filha), pedofilia, estupro. Há um conto grande onde um homem agride, estupra e mata uma mulher. Foi dificílimo ler uma cena tão brutal descrita com detalhes. Tive vontade de abandonar a leitura da história. Imaginem como fiquei ao ver a recente notícia de uma mulher que foi agredida por horas por um rapaz com quem conversava por meses na internet, algo semelhante ao que acontece no conto, mas felizmente com um desfecho diferente.

 Esses contos mais pesados, que envolvem estupro, não chegam a romantizar a situação, mas descrevem a cena com detalhes e não trazem uma punição para o agressor no final. Apesar de não serem muitos, acabaram pesando negativamente na minha avaliação sobre a antologia e me fazendo não recomendá-la, pois não sei quero estimular alguém a ler cenas de violência gratuita e brutal. Isso nos mostra um risco de se participar de uma antologia (eu já participei de algumas):  pode acontecer de o seu conto ser tranquilo dentro do tema e o de outro autor ser extremamente indigesto e você ficar sem jeito de recomendar para conhecidos o livro do qual faz parte.

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 Sobre a edição: gosto da capa, preta e com a imagem da máquina de escrever. As páginas são amareladas, há um detalhe no início de cada conto, as letras, a margem e o espaçamento entre uma linha e outra não são muito grandes, mas não tornaram a leitura desconfortável. Alguns contos tem mais erros de revisão que outros. Foi uma edição limitada, então pode ser difícil encontrar exemplares à venda.

 Detalhes: 130 páginas, ISBN-13: 9788568904152, Skoob.

 E por hoje é só, fica o registro sobre essa minha leitura. Me contem o que acharam do post? Se arriscariam a ler o livro?

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Até o próximo post!

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18 comentários

  1. Olá, Mari.

    O livro reúne contos bem cruéis, porém verdadeiros, alguns parecem ser até relatos de coisas que acontecem diariamente.
    Pensei que eu não iria me interessar pelo livro, mas lendo sua resenha fiquei tentada a lê-lo, espero ter a oportunidade futuramente!

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  2. Tudo bem? Acho que ainda não tinha visto esse livro por aí.
    Costumo gostar desse tipo de leitura e fiquei bastante curiosa por esse.
    Sua resenha me animou muito.
    Beijos.

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  3. Olá!! :)

    Eu confesso que nao conhecia este livro ainda, mas nao fiquei particularmente interessado.

    A culpa e do meu fraco interesse por antologias... Enfim, que otimo que gostaste de alguns dos contos!

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  4. Adorei a sua sinceridade e preciso agradecer por isso. Eu não gosto de ler sobre estupro, ainda mais tendo essa quantidade de detalhes, me enoja, me faz mal e não procuro um livro para ficar assim, então agradeço por você falar a verdade. O conto sobre o pai que matou a filha, nossa, não sei o que é pior. Pedofilia!!! Sinceramente, não vejo por que disso, se fosse um livro com uma mensagem a passar através de cenas como essas, por mais difícil que fosse a leitura, eu entenderia, mas coisas fortes assim sem mais nem meno (usando a expressão que você usou, violência gratuita) eu quero passar bem longe.

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  5. Realmente tem algumas cenas que dá vontade de jogar o livro pra cima. Eu acho que essa do estupro deve ser uma dessas. Mas fora isso, eu até que fiquei interessada na antologia.
    Beijos
    Balaio de Babados

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  6. Oi, Maria!
    Apesar dos contos que você gostou, não sei se aguentaria ler esses mais pesados, realmente me dá um certo ranço ler cenas em tantos detalhes, como você mesma disse. Se os demais contos forem lançados individualmente, eu me arrisco em ler, mas esses pesados, acho que nem com muito esforço.
    Bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  7. Olá

    As pessoas tem visão bem diferentes das coisas.
    Não dar punição a um personagem corresponde a 90% dos casos de estupro no Brasil e feminicidio, então é só uma mera reprodução e não um reforço a falta de punição adequada e já tem outros textos que mostram legalmente o que deveria acontecer. Isso é nítido no livro Laranja Mecânica que o autor é otimista e na adaptação cinematográfica, o produtor e diretor não eram. É tudo só perspectiva e cabe ao leitor/telespectador julga qual ele prefere.

    Obs: livros viscerais como esse devem vim com aviso de cenas fortes.

    Beijos

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  8. Oi!!
    Não conhecia essa coletânea de contos, mas algo que me chamou a atenção e acabou interessando foi o fato de ter assuntos tão diversos. Entendo o fato de vc ter se incomodado com algumas cenas e impunidades, mas isso é o que acontece com milhares de mulheres no nosso país.
    Parabéns pela sinceridade na opinião e por detalhado o que te incomodou!

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  9. Olá Maria.

    Eu não conhecia este livro e como adoro contos, ele conseguiu chamar minha atenção. Pela sua resenha os temas que você mencionou são bastante fortes, mesmo que incomode eu gosto de sair da zona de conforto literário. Realmente aumentou minha curiosidade. Sua dica está na lista de desejados.

    Bjos
    https://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com/

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  10. Eu sempre gostei muito de contos, mas geralmente, em coletâneas, nem todos me agradam. Acho super normal, tem sempre um narrativa que acaba nos ganhando mais, ou um personagem/história que nos fisga. Achei o tema interessante, mas não sei se leria porque não estou no clima momento. Quem sabe mais pra frente?
    Beijos

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  11. Oi Mari,
    Que chato que o livro não foi uma leitura tão boa, eu não sou adepta dos contos, sempre acho que a história pode ser maior e podia ser melhor, então sempre fico com a sensação de que faltou alguma coisa, é inevitável, por isso até evito de ler.

    Beijokas

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  12. Olá tudo bem? Adorei a premissa do livro, de fato é um estilo diferente de leitura mais que me interessou muito, gosto muito do gênero então daria uma chance sem dúvida para o livro! beijos!

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  13. Entendo seus motivos para considerar o livro pesado, apesar de ter alguns contos mais leves e que te conquistaram. Realmente é muito difícil ler cenas de violência gratuita, ainda mais quando os vilões não recebem uma punição por seus crimes.

    Eu sou apaixonada por contos e alguns que você mencionou até me interessaram. Todavia, por causa dos contos pesados, acabarei por não apostar nesta antologia.

    Bjs!

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  14. Olá!
    Ainda não conhecia esse livro, mas sou fã de terror e de contos, então já considero conhecer essa leitura em breve.
    Gostei de saber um pouco mais sobre as leituras.

    Camila de Moraes

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  15. Sobre sua observação da antologia ter cenas de estupro e não ter punição, etc, como se tivesse que ter um desfecho 'certo', eu não concordo. Literatura é arte, não o inimigo. E às vezes a base que usamos para enxergar a literatura como inimiga foi a mesma de Hitler quando mandou queimar milhares de livros e perseguiu artistas na Alemanha Nazista. a gente precisa deixar que a literatura seja o que é literatura. Se isso pesa negativamente, ninguém consegue ler Hilda Hist em Caderno rosa de lori lamby ou A História do olho, clássico da literatura mundial, ou Pssica que premiado internacionalmente ou Rubem Fonseca, etc. Todos extraordinários, mas que exige maturidade em vários aspectos por parte do leitor.

    Entretanto, se a pessoa não se sente bem lendo certas cenas, então concordo porque é o direito do leitor. Mas retalhar a arte pq existe o jeito 'certo' de escrever, daí é complicado. Depois que li Pssica, fiquei mal, não vou negar, mas minha resenha, precisa no mínimo imparcial e científica até onde possível, não no 'eu acho'. A Literatura não é a inimiga. Estou me referindo a literatura, não livro panfletário, são coisas distintas.

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    Respostas
    1. Oi, minhas resenhas não são imparciais justamente por eu acreditar que uma resenha não deva ser imparcial, e sim trazer uma opinião sobre aquilo que li.
      Concordo que não haja um jeito "certo" para se dar um desfecho para uma história e que nem sempre uma trama tem que trazer um significado, mas acredito também no poder transformador das palavras e na importância de se escrever com responsabilidade, independente de ser "só um livro", certas coisas não podem ser toleradas. Como você bem disse, não me senti bem lendo certas cenas e não me sinto a vontade ao ponto de recomendar essa leitura.

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  16. Olá,

    Eu gosto de livros com essa temática, não por apreciar esses crimes, mas sim por ter um conhecimento melhor pelo que passa na mente do criminoso. Acredito que essas histórias não são para qualquer um, por isso sempre fico afirmando que deveria ser avisado nas capas com uma alerta, vítimas de estupros ou crimes do tipo não podem ler exemplares como esse, podem despertar um trauma, ou até mesmo um gatilho.

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  17. Olá
    Mesmo com suas ressalvas, acho que poderia ser uma leitura interessante. Acho que nunca li uma coletânea, se li, nem percebi... tem alguns temas pesados, mas se abrirem espaço pra discutir os temas, já acho uma boa coisa.

    Vidas em Preto e Branco

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